Arquétipo da Síntese : a reconciliação entre o masculino e o feminino

 

A união com alguém é da ordem da graça.

Na teologia judaico-cristã, um momento de confusão entre o eu e o Self é o que chamamos de Paraíso. Na queda, perdemos a inocência infantil para viver no exílio, mas o objetivo é a união, a redenção, o reencontro com a unidade na diferença.

O caminho da síntese supõe a diferença e a diferenciação. Precisamos fazer dos momentos de conflito, uma ocasião de consciência que vai nos conduzir a uma unidade onde cada um pode ser capaz de amar o outro em todos os níveis e respeitar as diferenças.

O homem é uma síntese dos 4 elementos da criação : terra, fogo, ar e água. Nós encontramos esse tema nos pré-socráticos que insistem na integração. Na idade média vemos na entrada das catedrais as imagens da águia, do leão, do touro e do homem. E é preciso perceber que todos eles tem asas, cada um está nesse caminho de elevação, a síntese e a integração dos 4 elementos no centro, é o Cristo. Esses quatro viventes que simbolizam as 4 funções do homem não vivem sempre em harmonia. Isso é a causa da guerra e da fome. No apocalipse é interessante ver que, como esses 4 viventes não estão integrados no coração do cordeiro, é o dragão que tem o poder.

Esse trabalho de integração vai inspirar Carl Jung a falar das 4 funções : sentimento, razão, intuição, sensação, e a integração dos 4, o Self. Essa visão se inspirou nos portais das igrejas. Cada uma dessas funções pode ser desenvolvida, cortar ou sobrepor as demais. Funções dominantes e funções esquecidas, sendo que estas últimas estão na origem da sombra em nós. Temos que integrar essas 4 funções no encontro com o outro, no encontro de dois Selfs. Isso pode se tornar o encontro de nossas sombras.

Em nós há sempre luz e sombra, trata-se de reconhecer isso em sua inteireza. Para o oriental, não há luz sem sombra, dia sem noite.

Outro símbolo da síntese está na tradição chinesa. A palavra Tao significa caminho, via da cabeça aos pés. Para Tereza D’Ávila, a cabeça deveria estar no céu e as raízes, profundas na Terra. No evangelho de Tomé, é preciso que o alto e o baixo se toquem. É a integração que vai nos permitir tocar a Terra e estar aberto ao Céu. No símbolo do Tao, o negro e o branco não estão misturados , no interior do branco há o preto e vice versa. Não misturar e não separar para surgir o terceiro que é o círculo que contém os dois. Há o terceiro incluso, o que faz a ligação entre os dois.  Para ser um é preciso ser três. É importante o espaço entre os dois, o espaço que une e se distingue, o terceiro que há entre o amante e o amado. Não há aliança sem os três.

Os antigos chineses falam de harmonia e da palavra “cor”. A palavra cor/cordis/coração, simboliza o movimento do centro em direção ao centro do outro. O símbolo que representa o homem é essa harmonização entre o céu e a terra, o terceiro que faz a ligação.

O símbolo da escola de Grof Durkheim também tem a ver com esse significado, um enraizamento e a abertura.

Assim, temos que restabelecer sem cessar, a relação e a harmonização entre o homem e a mulher em vários níveis. Somos constituídos por 12 corpos, 12 níveis de consciência, e cada um desses corpos pode se tornar um corpo de sofrimento. Então, como dois corpos diferentes se encontram? Quais as dimensões que são reconhecidas, e quais permanecem desconhecidas para um e para outro ?

O corpo da memória, por exemplo, tem a ver com as memórias ancestrais que nos habitam, é trans geracional, coletivo. Por vezes esse corpo está doente porque não conhecemos nossos ancestrais, às vezes não sabemos quem é nosso pai, para alguns isso é um grande sofrimento. Qual a linhagem a qual pertencemos? Precisamos nos tornar livres dessa descendência. Em nosso corpo está toda a nossa família e todos os nossos ancestrais, temos nossa herança em nosso sangue. A cura só pode vir através da aceitação. Tudo que não é aceito não é transformado. Tudo que não é assumido, não é salvo. Temos que assumir nossa herança, nosso código genético, e aceitar os ancestrais do outro. A dificuldade do encontro às vezes é entre as nossas duas famílias, entre duas educações que recebemos. O inconsciente é habitado pelos ancestrais, então é importante compartilhar isso com o outro. Os fantasmas ocupam a relação e nos impedem de nos conhecer verdadeiramente.

O corpo de apetite se relaciona à fome, sede. Nosso corpo se torna aquilo que comemos, cada um pode observar em si mesmo os seus gostos e desgostos. Existe a angustia do vazio que preenchemos com alguns alimentos, por ex. na anorexia, na obesidade, etc. Temos que conhecer o nosso próprio corpo de apetite e o do outro. Apetite tem a ver com o gosto de viver. Às vezes num casal o apetite funciona muito bem, quando estão à mesa, aí está a verdadeira felicidade; a vida pode ser difícil quando um come carne e o outro é vegetariano. Em todos os níveis pode ser que damos ao outro o que temos de melhor, mas o outro não se alimenta disso. Como respeitar o desejo e apetite do outro? Essa é, às vezes, a fonte de muitos dramas. Como harmonizar os nossos apetites? Respeitar a dieta do outro e poder viver junto. Por vezes, não compartilhar prazer, pode afastar.

O corpo de pulsões, no nível da libido, é muito intenso. É interessante saber quais são nossos animais interiores. Qual é a minha vida pulsional, não somente no nível da sexualidade, mas também da violência. Às vezes em um casal, a violência é muito destruidora; é sempre uma energia da criatividade que não é expressa através de obras criadoras. Por vezes, em uma relação de casal, é esta energia que se enfrenta, portanto é importante ter em conjunto uma obra compartilhada, quer seja a criação de uma criança, de uma casa.

O corpo da emoção: alegria, tristeza, raiva. Somos mais ou menos emotivos, por vezes nos deixamos invadir por nossas emoções, nos tornamos escravos dela, nos tornamos objetos e não mais sujeitos dessa vida emocional. Temos tendência a impor nossas emoções, mas trata-se de estar na escuta e no respeito. Porém, compartilhar emoções juntos através da lágrima ou do riso, pode harmonizar esse corpo. Às vezes não expressamos emoções e as reprimimos,  não nos expressamos direito. Introduzir a consciência nas nossas emoções não as destrói, as liberta.

O corpo das palavras. Alguns de nós falamos sem cessar, e quando não somos nós, é o rádio ou a TV, um corpo barulhento. Para outros casais, a falta de palavras é uma dificuldade. Temos que colocar palavras na vida interior, porque a palavra é sagrada. Enquanto o casal consegue conversar, a vida é possível; quando não se pode mais falar, quando não se tem mais palavras para dizer ao outro o que tem de ser dito, mesmo que difícil, a vida do casal empobrece. É muito difícil dizer a verdade ao outro, é preciso amar muito. Ser capaz de dizer não te amo mais. Mas talvez existam outras formas de amor a descobrir no outro, um outro nível de amor mais profundo.Se somos capazes de conversar, de dizer a verdade ao outro e não temer a verdade que há em nós e no outro, acontece uma harmonização. Não há como viver na mentira, isso é uma forma de esquizofrenia.

O corpo de pensamentos. Normalmente nossa fala expressa nossos pensamentos. A mentira não expressa os pensamentos. Às vezes há uma grande distância entre o que pensamos e o que somos. O “sou quem sou “ se expressa através do pensamento, este se expressa através da palavra e esta se expressa através da ação. Mas às vezes não estamos nesse nível de transparência. Quando dois corpos de pensamento se encontram, podemos sentir os pensamentos um do outro. Às vezes isso não acontece, e os não ditos podem destruir o casal. Pensamento é energia e o silencio da não comunicação, é um silêncio de morte. Quando não se pensa mais na mesma direção que o outro, surge a questão: “o que você está pensando? sinto que você pensa em outra pessoa”. Às vezes dormimos no mesmo leito e não dormimos no mesmo sonho. São corpos de sofrimento que se enfrentam e que não tiveram tempo de esclarecer seus pensamentos. A comunhão de pensamentos em um casal traz muita harmonia, o mesmo cumprimento de ondas.

O corpo de desejo se trata de uma orientação que quero dar à minha existência, aquilo que realmente quero e faço todo o necessário para que essa vontade se realize. Alguns casais se separam neste nível, porque as vidas tomam direções diferentes. Um tem desejo de sucesso social e financeiro, mais o outro quer um sucesso mais afetivo e interior, ser bom e feliz. Às vezes não há mais um projeto ou futuro comum. Se sou fiel ao meu desejo profundo, ele pode ser incompatível com o desejo do outro. Então é necessário ter o amor e a coragem para se separar porque não dá para dois estranhos viverem juntos.

O corpo do sentimento. Será que meu corpo tem um coração? O meu caminho tem um coração? O que pratico tem um coração? Na relação com o outro, o coração está mesmo presente? Será que temos o desejo do bem do outro, que não necessariamente é a mesma felicidade que a minha? É no contato com o outro que tem um coração, que tocamos o divino que habita em nós.

O corpo dos sonhos são imagens arquetípicas, sons e imagens que nos habitam. Será que é só a imagem do outro que eu amo, ou o é outro em si mesmo?

O corpo de louvor. Há graça e poder no louvor. O fato de fazer isso junto com o outro pode ser uma fonte de união profunda.

O corpo de luz. Podemos ver a luz que está entre nós e a luz que está no interior de nós. Duas pessoas às vezes podem se encontrar nessa luz, são os corpos de luz que se envolvem.

O corpo do silêncio. Às vezes somos sensíveis a essa profunda presença do outro. O silêncio além de todas as palavras.

Assim como há 12 discípulos de Cristo, esses 12 corpos são discípulos do “Eu Sou”. O encontro com o “Eu Sou” do outro se dá no presente. O corpo do outro é, por vezes, um país no qual nunca chegamos. Quantos corpos se encontram na relação de um casal? Acredito que ninguém consegue se encontrar em todos os níveis. Mas podemos desenvolver um encontro mais rico e profundo nos corpos que não se encontram.

Há um texto da tradição grega, de Platão, que se refere à busca do outro como sendo a metade faltante; esse texto influenciou muitos pensadores e a nós mesmos. Será que estamos buscando a outra metade ou verdadeiramente um outro ? No banquete, na fala de Aristófanes, ele se refere a Eros como um tipo de amor que precisa preencher a falta. Nesse mito, o outro nunca é amado por si mesmo. Faço uso do outro para alcançar a minha plenitude. Amo no outro o meu próprio reflexo que se parece comigo – isso é narcisismo.

Há um texto no Gênese onde a diferença entre homem e mulher é a própria imagem de Deus. “No início nasceu a luz, o não manifesto se manifesta. Nada existe por si, tudo é ligado e interligado. O que conhecemos da vida são as manifestações, mas a vida em si mesma não conhecemos, ela se mantém escondida. O semblante do outro mostra o invisível. Os Eloim, energias criadoras, fazem existir todas as coisas, é como um sopro sobre o caos. O dia e a noite, a terra e a água, como um processo de separação, de diferenciação. Macho e fêmea criados por Eloim. A imagem de Deus como a relação entre ambos, não é o homem nem a mulher, é a relação. No evangelho, aquele que ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Nessa visão, a diferenciação sexual é percebida como positiva, é através dela que a vida se comunica. Não é bom que o ser humano permaneça só. Ele só pode ser feliz se tiver uma relação com o outro, aí ele se torna inteiro, dois seres inteiros, duas autonomias. Para Reiner M.Rilke, o amor que nós buscamos é o encontro de dois sujeitos que se inclinam um ao outro para que cada um chegue à sua plenitude. Não existe a necessidade do outro, é um amor mais maduro. A tradição hebraica é diferente da tradição grega.

Há um texto que pertence ao Novo Testamento que diz que, quando estamos no arquétipo do Cristo, não há mais macho nem fêmea. Como se vive o encontro a partir desse pressuposto? Na carta aos Gálatos diz que, quando entramos no arquétipo divino, não há nem judeu nem grego, não há mais escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea. Nos tornamos um na consciência do Cristo presente. Há que ultrapassar a diferenciação sexual, somos pessoas inteiras, cada um é um ser humano pleno. São relações de pessoas, somos iguais em dignidade. Em cada homem e em cada mulher a essência divina, a presença da divindade em cada um. Há que reconhecer a presença do Ser no outro porque, antes de tudo, reconheci em mim mesmo. No casamento na antiga tradição cristã, cada um coroava o outro. Há dois senhores, um príncipe e uma princesa. Nesse texto somos chamados a nos respeitar mutuamente.

Três grandes tradições, a grega, a hebraica, e a cristã, que talvez sejam 3 etapas da nossa existência.

No Evangelho de Felipe a presença de Deus se revela no encontro íntimo do homem e da mulher, no leito nupcial.

Em todos os corpos podem aparecer parasitas, mas o corpo do Bem Aventurado habita em nós e pode neutralizar essa contaminação. É a beatitude do Eu Sou que pode ser vivida em todos os níveis do nosso ser e compartilhada com o outro.

Os antigos chamavam o Bem Aventurado de arquétipo da síntese, o que faz a ligação entre o humano e o divino, a matéria e o espírito. Na tradição cristã o Bem Aventurado é o Cristo, e nas tradições antigas ele está representado entre João Batista e Maria Madalena. João Batista é o asceta, o homem do deserto, da justiça,  e Maria Madalena é mais a dimensão da beleza, da generosidade. A pessoa de Jesus vai integrar essas qualidades do masculino e do feminino. Integração da justiça e da misericórdia. Isso é representado nos ícones, é a maneira de representar o semblante de Cristo.

O encontro é o encontro de dois diferentes e no ser inteiro há o masculino e o feminino. Quando estamos em estado de meditação, estamos além da forma. Aí é o Eu Sou. O bem e o mal não são separados, assim como não são o dia e a noite. A realidade quântica é ao mesmo tempo onda e partícula. O arquétipo da síntese contém os contrários.

Cristo é a síntese entre Deus e o ser humano. A noção de Deus é uma noção humana. Não há Deus sem um ser humano que testemunhe essa realidade. E um homem sem Deus não tem profundidade. Não há homem sem Deus e Deus sem homem. Cada um de nós é o visível no invisível. O esforço e a graça andam juntos. O arquétipo da síntese está em nós, assim com a capacidade de integração: Pai/Filho/Espírito Santo.

 

 

Jean Yves Leloup

Workshop de Psicologia Transpessoal – Alubrat

25 e 26 de março de 2017

 

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