Arquétipo da Síntese : a reconciliação entre o masculino e o feminino

 

A união com alguém é da ordem da graça.

Na teologia judaico-cristã, um momento de confusão entre o eu e o Self é o que chamamos de Paraíso. Na queda, perdemos a inocência infantil para viver no exílio, mas o objetivo é a união, a redenção, o reencontro com a unidade na diferença.

O caminho da síntese supõe a diferença e a diferenciação. Precisamos fazer dos momentos de conflito, uma ocasião de consciência que vai nos conduzir a uma unidade onde cada um pode ser capaz de amar o outro em todos os níveis e respeitar as diferenças.

O homem é uma síntese dos 4 elementos da criação : terra, fogo, ar e água. Nós encontramos esse tema nos pré-socráticos que insistem na integração. Na idade média vemos na entrada das catedrais as imagens da águia, do leão, do touro e do homem. E é preciso perceber que todos eles tem asas, cada um está nesse caminho de elevação, a síntese e a integração dos 4 elementos no centro, é o Cristo. Esses quatro viventes que simbolizam as 4 funções do homem não vivem sempre em harmonia. Isso é a causa da guerra e da fome. No apocalipse é interessante ver que, como esses 4 viventes não estão integrados no coração do cordeiro, é o dragão que tem o poder.

Esse trabalho de integração vai inspirar Carl Jung a falar das 4 funções : sentimento, razão, intuição, sensação, e a integração dos 4, o Self. Essa visão se inspirou nos portais das igrejas. Cada uma dessas funções pode ser desenvolvida, cortar ou sobrepor as demais. Funções dominantes e funções esquecidas, sendo que estas últimas estão na origem da sombra em nós. Temos que integrar essas 4 funções no encontro com o outro, no encontro de dois Selfs. Isso pode se tornar o encontro de nossas sombras.

Em nós há sempre luz e sombra, trata-se de reconhecer isso em sua inteireza. Para o oriental, não há luz sem sombra, dia sem noite.

Outro símbolo da síntese está na tradição chinesa. A palavra Tao significa caminho, via da cabeça aos pés. Para Tereza D’Ávila, a cabeça deveria estar no céu e as raízes, profundas na Terra. No evangelho de Tomé, é preciso que o alto e o baixo se toquem. É a integração que vai nos permitir tocar a Terra e estar aberto ao Céu. No símbolo do Tao, o negro e o branco não estão misturados , no interior do branco há o preto e vice versa. Não misturar e não separar para surgir o terceiro que é o círculo que contém os dois. Há o terceiro incluso, o que faz a ligação entre os dois.  Para ser um é preciso ser três. É importante o espaço entre os dois, o espaço que une e se distingue, o terceiro que há entre o amante e o amado. Não há aliança sem os três.

Os antigos chineses falam de harmonia e da palavra “cor”. A palavra cor/cordis/coração, simboliza o movimento do centro em direção ao centro do outro. O símbolo que representa o homem é essa harmonização entre o céu e a terra, o terceiro que faz a ligação.

O símbolo da escola de Grof Durkheim também tem a ver com esse significado, um enraizamento e a abertura.

Assim, temos que restabelecer sem cessar, a relação e a harmonização entre o homem e a mulher em vários níveis. Somos constituídos por 12 corpos, 12 níveis de consciência, e cada um desses corpos pode se tornar um corpo de sofrimento. Então, como dois corpos diferentes se encontram? Quais as dimensões que são reconhecidas, e quais permanecem desconhecidas para um e para outro ?

O corpo da memória, por exemplo, tem a ver com as memórias ancestrais que nos habitam, é trans geracional, coletivo. Por vezes esse corpo está doente porque não conhecemos nossos ancestrais, às vezes não sabemos quem é nosso pai, para alguns isso é um grande sofrimento. Qual a linhagem a qual pertencemos? Precisamos nos tornar livres dessa descendência. Em nosso corpo está toda a nossa família e todos os nossos ancestrais, temos nossa herança em nosso sangue. A cura só pode vir através da aceitação. Tudo que não é aceito não é transformado. Tudo que não é assumido, não é salvo. Temos que assumir nossa herança, nosso código genético, e aceitar os ancestrais do outro. A dificuldade do encontro às vezes é entre as nossas duas famílias, entre duas educações que recebemos. O inconsciente é habitado pelos ancestrais, então é importante compartilhar isso com o outro. Os fantasmas ocupam a relação e nos impedem de nos conhecer verdadeiramente.

O corpo de apetite se relaciona à fome, sede. Nosso corpo se torna aquilo que comemos, cada um pode observar em si mesmo os seus gostos e desgostos. Existe a angustia do vazio que preenchemos com alguns alimentos, por ex. na anorexia, na obesidade, etc. Temos que conhecer o nosso próprio corpo de apetite e o do outro. Apetite tem a ver com o gosto de viver. Às vezes num casal o apetite funciona muito bem, quando estão à mesa, aí está a verdadeira felicidade; a vida pode ser difícil quando um come carne e o outro é vegetariano. Em todos os níveis pode ser que damos ao outro o que temos de melhor, mas o outro não se alimenta disso. Como respeitar o desejo e apetite do outro? Essa é, às vezes, a fonte de muitos dramas. Como harmonizar os nossos apetites? Respeitar a dieta do outro e poder viver junto. Por vezes, não compartilhar prazer, pode afastar.

O corpo de pulsões, no nível da libido, é muito intenso. É interessante saber quais são nossos animais interiores. Qual é a minha vida pulsional, não somente no nível da sexualidade, mas também da violência. Às vezes em um casal, a violência é muito destruidora; é sempre uma energia da criatividade que não é expressa através de obras criadoras. Por vezes, em uma relação de casal, é esta energia que se enfrenta, portanto é importante ter em conjunto uma obra compartilhada, quer seja a criação de uma criança, de uma casa.

O corpo da emoção: alegria, tristeza, raiva. Somos mais ou menos emotivos, por vezes nos deixamos invadir por nossas emoções, nos tornamos escravos dela, nos tornamos objetos e não mais sujeitos dessa vida emocional. Temos tendência a impor nossas emoções, mas trata-se de estar na escuta e no respeito. Porém, compartilhar emoções juntos através da lágrima ou do riso, pode harmonizar esse corpo. Às vezes não expressamos emoções e as reprimimos,  não nos expressamos direito. Introduzir a consciência nas nossas emoções não as destrói, as liberta.

O corpo das palavras. Alguns de nós falamos sem cessar, e quando não somos nós, é o rádio ou a TV, um corpo barulhento. Para outros casais, a falta de palavras é uma dificuldade. Temos que colocar palavras na vida interior, porque a palavra é sagrada. Enquanto o casal consegue conversar, a vida é possível; quando não se pode mais falar, quando não se tem mais palavras para dizer ao outro o que tem de ser dito, mesmo que difícil, a vida do casal empobrece. É muito difícil dizer a verdade ao outro, é preciso amar muito. Ser capaz de dizer não te amo mais. Mas talvez existam outras formas de amor a descobrir no outro, um outro nível de amor mais profundo.Se somos capazes de conversar, de dizer a verdade ao outro e não temer a verdade que há em nós e no outro, acontece uma harmonização. Não há como viver na mentira, isso é uma forma de esquizofrenia.

O corpo de pensamentos. Normalmente nossa fala expressa nossos pensamentos. A mentira não expressa os pensamentos. Às vezes há uma grande distância entre o que pensamos e o que somos. O “sou quem sou “ se expressa através do pensamento, este se expressa através da palavra e esta se expressa através da ação. Mas às vezes não estamos nesse nível de transparência. Quando dois corpos de pensamento se encontram, podemos sentir os pensamentos um do outro. Às vezes isso não acontece, e os não ditos podem destruir o casal. Pensamento é energia e o silencio da não comunicação, é um silêncio de morte. Quando não se pensa mais na mesma direção que o outro, surge a questão: “o que você está pensando? sinto que você pensa em outra pessoa”. Às vezes dormimos no mesmo leito e não dormimos no mesmo sonho. São corpos de sofrimento que se enfrentam e que não tiveram tempo de esclarecer seus pensamentos. A comunhão de pensamentos em um casal traz muita harmonia, o mesmo cumprimento de ondas.

O corpo de desejo se trata de uma orientação que quero dar à minha existência, aquilo que realmente quero e faço todo o necessário para que essa vontade se realize. Alguns casais se separam neste nível, porque as vidas tomam direções diferentes. Um tem desejo de sucesso social e financeiro, mais o outro quer um sucesso mais afetivo e interior, ser bom e feliz. Às vezes não há mais um projeto ou futuro comum. Se sou fiel ao meu desejo profundo, ele pode ser incompatível com o desejo do outro. Então é necessário ter o amor e a coragem para se separar porque não dá para dois estranhos viverem juntos.

O corpo do sentimento. Será que meu corpo tem um coração? O meu caminho tem um coração? O que pratico tem um coração? Na relação com o outro, o coração está mesmo presente? Será que temos o desejo do bem do outro, que não necessariamente é a mesma felicidade que a minha? É no contato com o outro que tem um coração, que tocamos o divino que habita em nós.

O corpo dos sonhos são imagens arquetípicas, sons e imagens que nos habitam. Será que é só a imagem do outro que eu amo, ou o é outro em si mesmo?

O corpo de louvor. Há graça e poder no louvor. O fato de fazer isso junto com o outro pode ser uma fonte de união profunda.

O corpo de luz. Podemos ver a luz que está entre nós e a luz que está no interior de nós. Duas pessoas às vezes podem se encontrar nessa luz, são os corpos de luz que se envolvem.

O corpo do silêncio. Às vezes somos sensíveis a essa profunda presença do outro. O silêncio além de todas as palavras.

Assim como há 12 discípulos de Cristo, esses 12 corpos são discípulos do “Eu Sou”. O encontro com o “Eu Sou” do outro se dá no presente. O corpo do outro é, por vezes, um país no qual nunca chegamos. Quantos corpos se encontram na relação de um casal? Acredito que ninguém consegue se encontrar em todos os níveis. Mas podemos desenvolver um encontro mais rico e profundo nos corpos que não se encontram.

Há um texto da tradição grega, de Platão, que se refere à busca do outro como sendo a metade faltante; esse texto influenciou muitos pensadores e a nós mesmos. Será que estamos buscando a outra metade ou verdadeiramente um outro ? No banquete, na fala de Aristófanes, ele se refere a Eros como um tipo de amor que precisa preencher a falta. Nesse mito, o outro nunca é amado por si mesmo. Faço uso do outro para alcançar a minha plenitude. Amo no outro o meu próprio reflexo que se parece comigo – isso é narcisismo.

Há um texto no Gênese onde a diferença entre homem e mulher é a própria imagem de Deus. “No início nasceu a luz, o não manifesto se manifesta. Nada existe por si, tudo é ligado e interligado. O que conhecemos da vida são as manifestações, mas a vida em si mesma não conhecemos, ela se mantém escondida. O semblante do outro mostra o invisível. Os Eloim, energias criadoras, fazem existir todas as coisas, é como um sopro sobre o caos. O dia e a noite, a terra e a água, como um processo de separação, de diferenciação. Macho e fêmea criados por Eloim. A imagem de Deus como a relação entre ambos, não é o homem nem a mulher, é a relação. No evangelho, aquele que ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Nessa visão, a diferenciação sexual é percebida como positiva, é através dela que a vida se comunica. Não é bom que o ser humano permaneça só. Ele só pode ser feliz se tiver uma relação com o outro, aí ele se torna inteiro, dois seres inteiros, duas autonomias. Para Reiner M.Rilke, o amor que nós buscamos é o encontro de dois sujeitos que se inclinam um ao outro para que cada um chegue à sua plenitude. Não existe a necessidade do outro, é um amor mais maduro. A tradição hebraica é diferente da tradição grega.

Há um texto que pertence ao Novo Testamento que diz que, quando estamos no arquétipo do Cristo, não há mais macho nem fêmea. Como se vive o encontro a partir desse pressuposto? Na carta aos Gálatos diz que, quando entramos no arquétipo divino, não há nem judeu nem grego, não há mais escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea. Nos tornamos um na consciência do Cristo presente. Há que ultrapassar a diferenciação sexual, somos pessoas inteiras, cada um é um ser humano pleno. São relações de pessoas, somos iguais em dignidade. Em cada homem e em cada mulher a essência divina, a presença da divindade em cada um. Há que reconhecer a presença do Ser no outro porque, antes de tudo, reconheci em mim mesmo. No casamento na antiga tradição cristã, cada um coroava o outro. Há dois senhores, um príncipe e uma princesa. Nesse texto somos chamados a nos respeitar mutuamente.

Três grandes tradições, a grega, a hebraica, e a cristã, que talvez sejam 3 etapas da nossa existência.

No Evangelho de Felipe a presença de Deus se revela no encontro íntimo do homem e da mulher, no leito nupcial.

Em todos os corpos podem aparecer parasitas, mas o corpo do Bem Aventurado habita em nós e pode neutralizar essa contaminação. É a beatitude do Eu Sou que pode ser vivida em todos os níveis do nosso ser e compartilhada com o outro.

Os antigos chamavam o Bem Aventurado de arquétipo da síntese, o que faz a ligação entre o humano e o divino, a matéria e o espírito. Na tradição cristã o Bem Aventurado é o Cristo, e nas tradições antigas ele está representado entre João Batista e Maria Madalena. João Batista é o asceta, o homem do deserto, da justiça,  e Maria Madalena é mais a dimensão da beleza, da generosidade. A pessoa de Jesus vai integrar essas qualidades do masculino e do feminino. Integração da justiça e da misericórdia. Isso é representado nos ícones, é a maneira de representar o semblante de Cristo.

O encontro é o encontro de dois diferentes e no ser inteiro há o masculino e o feminino. Quando estamos em estado de meditação, estamos além da forma. Aí é o Eu Sou. O bem e o mal não são separados, assim como não são o dia e a noite. A realidade quântica é ao mesmo tempo onda e partícula. O arquétipo da síntese contém os contrários.

Cristo é a síntese entre Deus e o ser humano. A noção de Deus é uma noção humana. Não há Deus sem um ser humano que testemunhe essa realidade. E um homem sem Deus não tem profundidade. Não há homem sem Deus e Deus sem homem. Cada um de nós é o visível no invisível. O esforço e a graça andam juntos. O arquétipo da síntese está em nós, assim com a capacidade de integração: Pai/Filho/Espírito Santo.

 

 

Jean Yves Leloup

Workshop de Psicologia Transpessoal – Alubrat

25 e 26 de março de 2017

 

A vontade de curar e o Impulso Crístico

 

No Congresso de Natal de 1924 Rudolf Steiner proferiu a seguinte frase :  “ Que as pessoas se tornem aquilo que fortifica o mundo”. Todos nós temos uma tarefa sanante que cura algo no mundo. No evangelho, os discípulos foram enviados para sanar o mundo. Steiner disse que o impulso crístico da atualidade se mostra na atividade de cura.

O que a proposta de sanar tem a ver com o Cristo ? Steiner falou muitas vezes sobre a força de vontade e a coragem de curar. Quando ele falava sobre Ita Wegman, ele dizia que ela tinha essa coragem. Gostaria então de abordar nesta palestra de hoje, as qualidades de alma que Ita Wegman possuía e que todo ser humano da atualidade também possui.

Em relação ao pensar, o curar tem algo a ver com o reconhecer. Se quisermos ajudar alguém, temos de entender o que lhe falta. Nós vemos o sofrimento de uma pessoa, mas só ver não significa a solução para resolver esse problema. É uma tarefa de compreensão entender a partir do que e de onde vem o sofrimento do outro, assim como a ajuda para tirar esse sofrimento. Sabemos que hoje não são apenas seres humanos que sofrem, mas sim toda a Terra.

A consciência desse sofrimento existe em muitas pessoas, mas muitos não têm o diagnóstico nem a terapia corretos. Se realmente queremos ajudar para a solução do sofrimento, temos que trabalhar intensamente no âmbito da compreensão. O termo diagnose (do grego) significa que se olhe através da doença para a terapia.

Quando perguntamos a alguém “o que lhe falta ?”, pode ser que seja o sentido da vida, um amigo,ou o processo de ferro no sangue; quando se pergunta isso, não é uma questão de perguntar o que o faz sofrer, mas sim, do que ele tem necessidade. O que temos que aprender não é somente ver a necessidade, mas o que a origina e como podemos prover essa necessidade.

É uma questão de coragem olhar o que está além do aparente para chegar ao cerne do problema. É muito simples dar sonífero a quem não consegue dormir. Pesquisar o motivo da insônia já exige mais trabalho. E trabalhar com o paciente no problema que causa a insônia, exige outro empenho.   É uma questão de coragem, de força de vontade. Porque adentramos uma situação difícil, não se tem a resposta imediatamente, pois o sintoma não é o problema em si.

Tenho que fazer uso do meu Eu que quer reconhecer algo do problema.    Nos âmbitos social e político, a explicação para tudo é muito rápida, só se corrigem os sintomas. Mas se queremos passar além disto, faz-se necessário adquirir uma força de vontade que quer abarcar e saber. Isso é um princípio Crístico primordial: fazer juízo próprio e uso da própria razão. Para Emanuel Kant “o conhecimento é o início para o ser humano poder sair da sua dependência auto-inflingida”. Se nós queremos curar, temos que dar conta da tarefa de esclarecermos as coisas.

Antroposofia é uma ciência do conhecimento. Ela não é primariamente algo que concerne ao sentimento, mas sim ao pensar. Não é apenas pensar, mas ela começa com o pensar e com a atividade do Eu dentro do pensar. Eu desconfio daquilo que vem a mim como julgamento alheio, eu próprio quero formar meu julgamento.

Ita Wegman antes de ser médica era fisioterapeuta e trabalhava com massagem, mas cada vez mais se sentia frustrada porque tinha que executar o que os médicos indicavam para os pacientes, não lhe era permitido formar o próprio diagnóstico nem a terapia. Ela queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, mas só podemos assumir responsabilidade pelo que reconhecemos e entendemos por nós mesmos.

A Medicina Antroposófica começou como um novo caminho cognitivo. A Pedagogia Antroposófica também começou com esse mesmo caminho. Na pedagogia temos a tarefa de saber, por exemplo, o que leva a criança a ser muito agitada. A Agricultura Antroposófica também tem esse impulso, onde tentamos entender o que leva a planta a criar uma doença, e não só utilizarmos produtos químicos.

Assim vemos que em todos os âmbitos, se queremos atuar de forma sanante, precisamos de um profundo julgamento, e a Antroposofia é um impulso de coragem para formar seus próprios julgamentos. A atuação crística do século XX se apresenta em pessoas individuais que adquiriram a capacidade de criar uma atividade própria no pensar em vários âmbitos da cultura. Pessoas que usaram um pensar diferente da corrente comum para procurar a verdade. É uma questão de coragem ser contrário ao que a massa pensa ou comunga. Quantas vezes assumimos os julgamentos alheios sem passar por um pensar próprio? A vontade de curar tem a ver com coragem.

Mas situações humanas não apelam apenas ao pensar, mas também ao nosso sentir. Segundo R.Steiner “ se nós sentirmos o ar que nos circunda, ele tem oculto em si a coragem”. Todos nós sabemos que pessoas que tem medo, também têm problemas respiratórios. Se prestarmos atenção profundamente, perceberemos que é nesse âmbito que abarcamos o mundo para dentro de nós e nos expandimos no mundo. No âmbito da organização rítmica da respiração, estamos abertos. Todos nós inspiramos e expiramos o mesmo ar.

Percebemos que neste âmbito do sentir comungamos com o entorno. É uma questão de coragem se permitimos essa aproximação do outro, ou se nos afastamos. A inspiração pressupõe uma confiança no mundo, um gesto de simpatia, e a expiração é algo do qual me distancio. Quando temos uma situação difícil tendemos a não querer inspirar, pois trazemos para dentro de nós o problema.

Ita Wegman tinha esse ímpeto de ir até a pessoa doente. Ela queria que a situação do paciente se aproximasse para bem perto de si. Há que se ter coragem para inspirar o sofrimento e a necessidade do outro. Sabemos que Francisco de Assis se dirigia aos leprosos e não se contaminava, ele adentrava essa miséria.

R.Steiner dizia : “ não amem somente os doentes, mas aprendam a amar as doenças”. Geralmente temos uma relação muito negativa para com as doenças, mas também para com os problemas sociais, as guerras, para tudo o que é negativo no nosso mundo. O convite para “amar” uma psicose ou uma leucemia soa tão absurdo como se tivéssemos que amar as drogas ou a guerra, pois é obvio que são características que tem a ver com o mal, e o queremos manter bem distante. Podemos perceber que quando nos distanciamos do mal, ele não desaparece, mas procura outro endereço.

O mundo inteiro está hoje repleto de pessoas que estão fugindo, são 60 milhões de refugiados. Os países fecham suas portas, mas o problema não se resolve. É óbvio que os refugiados não são o mal, mas do que eles estão fugindo é muita maldade e teríamos que nos haver com isso.

O impulso crístico tem a ver que se permita que aquilo que é escuro e mal se aproxime de mim na esfera do sentir. Cristo acolheu Judas em seu circulo de discípulos. Exige uma certa coragem admitir o mal nesta esfera e inspirá-lo.

Ita Wegman tinha uma força cognitiva médica inspiradora. Isso inclui a inspiração. Ela era uma médica que procurava o encontro com o paciente, com a doença. Isso não quer dizer se tornar doente também, mas sim, deixar a doença se aproximar tanto afim de que o impulso da terapia desperte e possa ser aplicado. Ela, em silêncio, deixava-se permear pelo paciente, e aí surgia a resposta. Muitos impulsos terapêuticos novos surgiram da convivência com o doente e a doença, e não com a distância.  Na aproximação pode surgir uma intuição da terapia. Essa força do amor que se une ao mal possibilita uma transformação. Se quisermos realizar esse impulso de cura no âmbito do sentir, temos que permitir que a maldade do mundo chegue a nós.

Como se dá essa coragem no âmbito do querer? Esse âmbito é a vida e a morte. No pensar, luz e trevas, no sentir, calor e frio, e no querer sempre se dá a luta entre vida e morte. Sabemos na medicina que a morte está sempre presente nas doenças graves. Mas também nas nossas atividades sociais, sempre há a possibilidade de destruição, do fim, e com isso acoplado vem essa tonalidade da alma que tem a ver com a falta de esperança.

O que nos é colocado neste âmbito como tarefa é que conquistemos a confiança. Na Grécia havia uma indicação de que os médicos não deviam tratar os pacientes desenganados. Provavelmente isso lesaria a reputação do médico. O grego tinha uma relação problemática com a morte – ela era o fim da vida, um nada. Para R.Steiner os médicos deviam se digladiar com a morte, se confrontar com a morte. A tarefa do médico é ajudar para a vida, eles devem fortalecer as forças vitais do paciente, e não formar prognósticos à respeito da morte, pois senão o paciente morre. O terapeuta não deve abrir mão da vida, deve manter a esperança.

Hoje em dia na Terra podemos prognosticar a morte em vários âmbitos: social, ecológico, econômico. Muitos jovens que se retraem para a vida particular já abriram mão de atuar no social ou na política, como faziam os jovens de 20 anos atrás. Muitos deles não têm mais esperança de que possa vir a superação de uma situação que atualmente se apresenta no mundo.

Ita Wegman tinha essa força incrível na superação do indivíduo, tinha uma fé que movia montanhas. Ela tinha essa fé não só em respeito às doenças, mas em situações difíceis da vida dos pacientes, força de vontade para procurar uma solução junto com o paciente. R.Steiner dizia que os médicos teriam que desenvolver força de vontade para o carma, para o destino. Assim que, se como médico me empenho para transformar uma situação do paciente, me ligo ao seu destino e a situação se torna um pouco minha também. Não é suficiente dar um bom conselho, o paciente tem que sentir que o médico está de forma existencial lutando e buscando uma solução.

O impulso crístico é, nesse sentido, a disposição de entrar com responsabilidade numa tal situação ; quando nos unimos a ela não somos mais só espectadores, mas nos tornamos parte dela. Na atualidade, esse impulso no âmbito social tem a ver com que atuemos com o nosso querer de tal modo que nos tornemos parte dele e assumamos responsabilidade por ele. Muitas vezes não queremos nos comprometer, entrar numa situação difícil. Mas seria sim nossa tarefa nos envolvermos com o que sabemos ser um descaminho. Faz parte sanar o que é difícil.

Ita Wegman possuía a capacidade de sacudir os pacientes para lembrá-los dos propósitos de suas vidas. Trata-se da questão onde, com o meu Eu, entro no querer. Temos que olhar para esses 3 âmbitos, pensar/sentir/querer, e o Eu nessas forças. Sua clinica era um espaço onde o impulso crístico vivia na comunidade como um todo. Pessoas que desenvolvem essa vontade crística necessitam uma comunidade ao redor que também queira fazer isso dessa maneira. Muita alegria, muita leveza e calor viviam na clinica em Arlesheim, na Suíça. Um ambiente de cura precisa dessa leveza, de humor, de cores e alegria para não se tornar algo estático, estarrecido. Apesar de todas as dificuldades que encontramos no mundo atual, encontramos também esses impulsos.

O Espírito de Cristo sopra onde ele quer.

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Palestra proferida por Peter Selg

Sociedade Antroposófica do Brasil

22 /03/ 2017

Published in: on 04/04/2017 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

Cartografria da Consciência

 

O Tantra é uma filosofia da libertação para a liberação da kundalini, a vida em abundância como falava Cristo.O livro do corpo é o primeiro que temos que abrir na vida, é preciso aprender essa linguagem.O segundo é o livro da natureza, precisamos conhecer as leis que a regem.O terceiro livro que abrimos é o livro do “instante”, o que está acontecendo agora na vida.

Estamos ancorados no pacote da memória e existem 3 máximas que deveriam ser observadas : 1) Nunca reclame daquilo que você permite ;   2) Você se torna melhor naquilo que treina mais ; 3) Ligue os pontos .Em 2008 conheci o 8º chakra com um mestre na Índia, o nome deste centro de energia é “chama” cujo significado é calma. Este encontro me despertou para a pergunta matriz, que é aquela que pode nos mover na direção do plano do Universo : “ O que quer acontecer agora ? ”. Temos que entender sobre as frequências de onda e como funcionamos.

A Cartografia da Consciência tem 4 níveis pessoais, que tem a ver com os paradigmas e como pensamos o mundo, e tem 5 níveis transpessoais, que são os patamares de consciência que alcançamos. Nós podemos alterar alguns aspectos. Como você está neste momento ? Quais são os seus desafios e propósitos no campo da realidade ? Qual sua relação com prosperidade, prazer e poder ?

O mapa indiano, o eneagrama, as leis herméticas podem ser utilizados para conhecer aspectos do grande campo da transpessoalidade. Quando trabalhamos todos esses aspectos podemos observar como a vida pode se modificar.

A fonte de todas as nossas doenças é o estresse, que é gerado pelo medo. Nelson Mandela falou que o nosso maior medo é abraçar a nossa grandeza.

Já abordei o tema sobre como somos regidos pelo campo da escassez (Visões de Mundo) e como não fomos treinados para a abundância. Somos prósperos quando temos raízes e isso tem conexão com o primeiro chakra. O que precisamos aprender nessa dicotomia ? Temos a ideia da falta como um fato básico. Não há condições de a vida acontecer sem tempo, mas estamos com um modelo mental tão escasso que não percebemos que o tempo é abundante. O que você quer que esteja no seu tempo ?

A vida não exige de nós nenhum comportamento específico, não é uma questão de mérito. A vida nunca desiste de nós, ela acredita sempre no potencial de cada um encontrar-se nela. O campo é abundante para estar sempre provido, mas como temos o paradigma da escassez, estamos sempre focando no que nem é vida.

Pensamos diferente dos orientais. A qualidade de vida – bem estar, poder, sensação de sentido – é do campo do Carma. Para os orientais existe a lei de causa e efeito, mas os ocidentais têm o pensamento mágico de que não vivem num campo de conseqüências. Para o ocidental a responsabilidade da vida é externa – da sociedade, do outro, do governo.

Sempre fazemos um recorte da realidade de acordo como a vemos. A realidade é o que acontece, e como lido com isso, é o meu papel na relação com a realidade. Tudo que acontece é por si mesmo, não é algo que nós temos que decidir.

A primeira lei da natureza é que tudo é impermanente. Estamos muito focados nos aspectos materiais da realidade, mas, de fato, os aspectos imateriais é que fazem a diferença.

Do ponto de vista vibracional, felicidade é bem fácil de ser alcançada.O estado de alegria é um estado natural, mas fomos colocados numa fôrma na sociedade e perdemos isso. Os mestres acham graça em tudo. A vida sempre nos convida à evolução e quando não temos problemas, evoluímos muito pouco. Precisamos abraçar campos de desafio.Estudar, viajar para lugares diferentes, entrar em contato com coisas e pessoas de outras culturas, são desafios.

Viemos para a Terra para aprender a sermos terráqueos, e não conseguimos aterrar! Quanto mais perto da Terra, mais pragmáticos somos, e quanto mais pragmáticos, mais aptos nos tornamos para encontrar a solução. Cada um de nós traz a fórmula especifica da capacidade de consciência, a resposta está dentro dela.

O foco do primeiro chakra é resultado. Enquanto a pessoa não se dá conta que não sabe, a situação não flui. Para este primeiro nível de consciência é preciso que tenhamos clareza para saber o diagnóstico : da raiz da palavra em grego, conhecimento (gnose) do sagrado (dia). Vida não é esforço, é estratégia e fluxo. O esforço é a base da escassez.A prosperidade é algo que exige de nós uma certa clareza. Espiritual e material não são coisas separadas, tudo é freqüência de onda, tudo é espiritual.

O chakra umbilical, o segundo nível da consciência, traz a dicotomia entre o dever e o prazer. Somos sistematicamente treinados para o campo do dever e isso traz um desequilíbrio para este chakra. Culturalmente não tivemos treino para o prazer.         “Como você se diverte ?” é a pergunta para esse nível. Assim, a alegria é um campo difícil de ser alcançado. O prazer de estar, de vestir, do paladar, da audição, da visão. Devemos nos abrir para a arte e a beleza. O prazer depende de nós e precisamos nos alinhar com aquilo que aumenta nosso bem estar, que nos deixa mais felizes. Quantas vezes nos culpamos por estarmos bem ? A raiz da palavra proteção é “colocar-se no melhor lugar”. A natureza nunca promove desperdício. Ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho. A transformação se dá no encontro. Você tem o poder de desenhar a sua vida.

O terceiro chakra, plexo solar, tem muito a ver com a forma como digiro as coisas. A palavra chave é poder e a dicotomia neste nível é entre a intuição e o instinto. O instinto não é o melhor regulador da consciência ;  medo, carência e raiva estão nesse campo. Um corpo dominado pelo medo e pelo controle sente muita dor. O medo é necessário para a vida mas não pode gerenciar a consciência. Os instintos não podem ser gerenciadores emocionais, eles estão ligados ao corpo físico.

Consciência e apego estão associados. A raiva é fundamental para superar obstáculos físicos, mas quando se torna campo consciencial vira reatividade e sequestra a nossa vontade. A pergunta neste nível é: “ Quais são as minhas atitudes ? ”. Na intuição o controle se transforma em confiança – fé em si, na vida, senso de entrega. A roda dos ventos da Cartografia da Consciência são quatro (4) :

  • Você é livre
  • Abundância para fluir
  • Criatividade é o oposto de reatividade
  • O amor é a grande energia geradora do Universo

Precisamos vibrar mais elementos amorosos em nós, porque a criatividade é gerada aí. É importante perceber a vibração amorosa no campo da consciência. Não somos treinados para amar nem para receber amor. Temos que sair do medo, da carência e da raiva e caminhar na direção da fé, da abundância e do amor. Migrar do instintivo para o intuitivo é a direção da liberdade.

Todas as coisas que sabemos foram aprendidas, e todas as coisas que não sabemos podem ser aprendidas. Se eu quero o novo tenho que transpor o campo do conhecido para o desconhecido. Se você tem um propósito ou um sonho, é porque você já tem a capacidade de realizá-lo, isso já é do campo da consciência.

No quarto chakra temos duas vibrações : amorosidade e cura. Esse é o último nível pessoal. Ninguém e cura e ninguém te ensina, os indivíduos ao redor são facilitadores, é você quem se cura e quem aprende. O campo amoroso é criativo. Precisamos adotar tecnologias para cuidar de nós e nos ensinar o caminho da cura.

É possível ser longevo e ter qualidade de vida. A pergunta nesse nível é :“ Como eu sinto a vida ?” . Quando me dou conta disso começo a utilizar os recursos ao meu redor. O caminho de cada um é único. Este nível tem a ver com pulmão e coração, alegrias e tristezas. Esse é o primeiro nível sem dicotomia, pois nos aproximamos do nível transpessoal.

Segundo Joseph Campbell, na jornada do herói os inimigos internos são sempre mais fortes, portanto precisamos vencer o inimigo interno, amar esse inimigo. Quando foi que você começou a deixar de apreciar a pessoa que você é? Quando foi que perdemos a emanação essencial que é amar a nós mesmos e a buscar ser uma pessoa que não somos? Quando nos afastamos da nossa beleza essencial? Somos uma coisa magnífica, precisamos reconhecer o ser raro que somos e não temos que ser igual a ninguém. Somos uma improbabilidade matemática, somos um milagre. O resgate essencial é amar a si como se é.

 

Dulce Magalhães (in memorian)

Aula proferia em 03/02/2017 no Curso de  Pós Graduação em Psicologia Transpessoal  Alubrat

Obs : os acima mencionados 5 níveis transpessoais da Cartografia da Consciência não puderam ser expostos na aula do dia seguinte por motivo de falecimento

Published in: on 01/03/2017 at 7:30 p03  Deixe um comentário  

A Transformação do Mundo e o Auto Conhecimento em face do Mal

 

Esse é o tema mais atual e importante do século 21.

Qual a origem do Mal ?

Em literatura filosófica ou teológica, sempre se encontra o conhecimento do Mal, e desde que a humanidade começou a pensar, existe a necessidade de explicar o surgimento do Mal, mas no entanto não consta uma explicação satisfatória .

Durante muito tempo na história da humanidade, não havia a necessidade de explicar porque existia o Mal, ele simplesmente estava lá.

Na Bíblia, temos descrições do Mal, mas nenhuma explicação de onde ele veio. No primeiro capítulo do Gênesis começa a seguinte frase : “..e a serpente era a mais astuta de todos os animais que Deus criou”. Ela estava lá. Na tentação de Jesus dos 40 dias no deserto, o tentador estava lá. No apocalipse, na luta de Micael contra o dragão, este já estava no céu, não se sabe como chegou lá. Nos contos de fadas, como p.ex, o do Chapeuzinho Vermelho, o lobo já está lá no bosque.

Em muitas dessas imagens, o Mal faz parte. Em algumas mitologias, isso já se encontra diferenciado, ou seja, já existe algo ou algum lugar de onde surge o Mal. Mas a necessidade de fato de entender o Mal surge na Grécia com o pensar lógico. Na Grécia tinham muitos deuses que estão relacionados com a realidade espiritual que se encontra atrás da meteorologia : Zeus, Deus do trovão e do relâmpago. Mitologias reconheciam o Mal e o Bem como forças originais, mas não chegam até aquela ideia de que tudo tem a sua origem.

Um dos primeiros filósofos, Epicur, em 300 AC, reconheceu o problema de tentar explicar a origem do Mal. Ele se colocava questões como :”Ou Deus quer eliminar o Mal e não pode, ou Deus não quer eliminar o Mal ; se Deus quer eliminar o Mal e não pode, ele é impotente e não é Deus ; se Deus pode eliminar o Mal e não quer, ele é malvado ; se ele pode e quer, porque não o faz ?”

Esse é na realidade o problema que nós temos. Um grande problema da filosofia foi tentar explicar o campo de concentração nazista :  Como Deus permitiu isso ? Como é possível que isso tenha existido ?

Existem aproximadamente umas 7 tentativas filosóficas e teológicas para tentar explicar de onde vem o Mal.

Uma delas, que se tornou a base da teologia católica, formulada por Agostinho e aprimorada por Tomás de Aquino, é que Deus em si é completamente bom, e por isso ele permitiu o Mal. Uma imagem que não explica, mas que nos ajuda a entender este ponto de vista, está na passagem da quinta-feira santa quando o Cristo diz a Judas para ir e fazer o que tinha de ser feito. O Mal não é criado por Deus, mas ele é permitido. Na cultura cristã a ideia é de que havia surgido um Deus bom.

Culturas mais antigas tem muito mais o pensamento de que o Bem e o Mal são as duas forças originárias de todo o mundo. Luz e Trevas eram desde o início Bem e Mal.

Uma terceira tentativa de explicação seria talvez a de reconhecer que os seres que provocam o Mal são anjos caídos. No Apocalipse existe a luta de Micael contra o dragão que é jogado na Terra com seus anjos. Por que eles caíram ?

Outra visão é a de que o Mal está na essência de Deus, de Deus em si, esta qualidade está n’Ele.

Outra possibilidade de explicação é a tendência de entender o Mal como uma imperfeição da natureza. Hoje em dia, é o que mais está no sentimento das pessoas. Por exemplo, quando aconteceu recentemente o assassinato de jovens por um homem numa colônia de férias da Noruega. O assassino era doente ou não? Há a tendência de dizer que algo no corpo dele não estava correto e isso causou esse comportamento, explicando o Mal a partir de uma doença. Diametralmente oposta é a concepção da cultura judaica no antigo testamento, para quem a doença é a conseqüência de um pecado, o pecado é que provocaria uma doença.

Um sexto ponto de vista traz o ser humano como causa do Mal. O Mal não existe em si, mas só no ser humano, como diz Guimarães Rosa, que começa seu livro Grande Sertão com um moto “o diabo no meio do redemunho”. O que está no meio do redemoinho ? O silêncio, o vazio. “O diabo vige dentro do homem…”  Na natureza não se pode falar de moralidade, porque essa é uma categoria do ser humano. O leão mata a gazela porque tem fome, não porque é malvado.

Dentre estes pontos de vista que se desenvolveram a partir da possibilidade do ser humano pensar logicamente, podemos encontrar um outro na Antroposofia. Rudolf Steiner apresentou muitos pontos de vista que nos trazem imagens mais completas e complexas de como o Mal pode ter surgido. Um dos primeiros é o conceito das hierarquias superiores. Vamos tentar pensar nessa realidade de 9 hierarquias, começando do ser humano até chegar à esfera que está acima, a esfera do divino , da Trindade, às três qualidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Se tentarmos conceber a realidade espiritual das hierarquias e daquilo que está acima delas, a Trindade, temos que igualmente conceber que o Mal está nessa origem. O Mal tem um sentido, uma tarefa, ele tem que existir. No último capítulo de seu livro O Conhecimento dos Mundos Superiores, R. Steiner descreve o desenvolvimento do mundo espiritual dizendo que este havia chegado a um ponto em que não havia mais como ir para a frente, e que para isso ocorrer seria necessário que surgissem seres com determinadas qualidades : esses seres eram os seres humanos. E que qualidades seriam estas que o ser humano teria que desenvolver para possibilitar a continuidade de desenvolvimento dos seres espirituais ? Por um lado a liberdade e por outro o amor.

O nosso planeta Terra e a natureza estão repletos de sabedoria, mas não de amor. Essa é a tarefa do ser humano, desenvolver a liberdade e a partir dela, a qualidade do amor. Assim como a natureza é reflexo de sabedoria, nos tempos vindouros, em uma próxima etapa futura da Terra, a natureza deverá ser repleta de amor. Isso nos remete à possibilidade de escolha entre o Bem e o Mal. O Mal está na vontade de Deus porque é necessário para nós humanos, para que possamos desenvolver a liberdade.

Como Deus criou o mundo ? “ O espírito de Deus pairava sobre as águas”. Deus não só cria algo, ele separa. Ele separou a luz das trevas. A tendência da separação está na vontade de criação de Deus. E o que acontece quando se separa ? Pode ser que aconteça algo bom, e pode ser que não. Nós fomos separados do Paraíso e a possibilidade de reconhecer o Bem e o Mal só foi possível depois de comer da árvore do conhecimento.

A separação provoca uma consciência maior. Também pode acontecer de , com a separação, surgir uma força não ligada à vontade divina, mas sim, com uma vontade própria.

Steiner descreve como seres muito elevados assumiram a tarefa de se separarem dos outros. Na realidade, fizeram um grande sacrifício, algo que realizaram para o desenvolvimento do Universo. Esses seres espirituais tem um relacionamento meio que “religioso” uns com os outros, eles se doam uns aos outros em devoção. E o que acontece quando uma hierarquia inferior tem uma atitude de fazer uma oferta para uma hierarquia superior, e essa oferta é rejeitada ? Abel faz seu sacrifício que é aceito por Deus, Caim faz o seu e é rejeitado, surgindo então o impulso de matar o seu irmão.

A rejeição é uma fonte de grandes problemas sociais. Quando olhamos do ponto de vista do desenvolvimento, o Mal só existe porque está fora do tempo e do lugar. O correto tem que ser correto no tempo correto. O que para um jovem é completamente correto, para uma criança é errado.

É no meio do redemoinho que temos que desenvolver o nosso Eu, e nesse espaço de possibilidade ainda vazio, criar a força de tomarmos decisões a partir das emoções. É nesse espaço que pode surgir o Mal no ser humano porque do amor a si próprio em muita quantidade surge o egoísmo. Na realidade estamos sempre entre a escolha do Bem e do Mal, e a tarefa é ter equilíbrio em relação a tudo. Isso é uma chave para lidar com o Mal cotidiano.

Steiner fez uma grande escultura de madeira cuja imagem traz uma polaridade entre seres com o homem no meio deles realizando o equilíbrio de forças. No Jó do antigo testamento, Satanás conversa com Deus e consegue permissão para tentá-lo. Mas Jó não tem ainda esse adversário em si, o Mal ainda está só do lado de fora. O Fausto de Goethe não é tão puro como Jó, ele já tem em si o desejo de conhecer.

A atuação do Mal que tem muito a ver com a nossa atualidade está ligada ao desenvolvimento da genialidade com a anulação do que são as forças do amor. Na atuação do Mal a partir do século XIX temos o “dragão” atuando na Terra, e uma demarcação clara disto é o nazismo, o processo industrializado do Mal.

As tempestades para nós não são mais uma manifestação do Mal, mas sim, como nos resolvemos no íntimo de nós mesmos. Na confrontação com esta tarefa, podemos desenvolver algo superior como o Bem, o Belo, o Verdadeiro. E construir o Amor como superação do egoísmo.

 

Resumo da palestra proferida pelo Sacerdote João Torunsky

Sociedade Antroposófica no Brasil – 16/11/2016

Visões de Mundo

Vamos filosofar sobre a qualidade do nosso olhar sobre a realidade, vamos ver o que a ciência, a tradição e a arte tem a dizer sobre de onde viemos, como pensamos o que pensamos, e como mudar o que pensamos.

Temos uma lente, uma forma para pensar a realidade, e quando dizemos  “ eu não sei ”,estamos aprendendo. Graças aos céus, aquilo que a gente quer nem sempre se realiza, porque nosso ponto de vista é muito limitado. Mas a vida é muito maior, ela não atende aos nossos desejos, mas sim aos nossos desígnios.

Somos frutos da cultura e a visão de mundo que temos não é a verdade absoluta. A atividade de se tornar um indivíduo é o desafio do desenvolvimento. Tornar-se quem se é, é o grande exercício de transformação que precisamos empreender ao longo da vida. A metáfora para isso é a borboleta : lagarta, crisálida, borboleta. A crisálida representa todos os momentos de crise. Segundo João da Cruz,  “a noite escura da alma”. E quanto mais enfeitada a cela, mais difícil abandonar. Tem coisas que não é de explicar, é de viver.

Todos nós temos paradigmas, que são fôrmas da cultura. Como se dá a nossa visão de mundo ? Todos enxergamos a realidade através de lentes desde pequenos e isso tem uma finalidade estruturante. E quem não tem, se torna disfuncional na cultura. Vemos o mundo através de lentes e crenças. A Biologia Cultural, tese de Maturana e Varela, explica como nosso corpo acaba tendo a expressão física do que a cultura nos informa, e nossa saúde depende desse padrão cultural e estilo de vida.

A Universidade de Londres fez uma pesquisa sobre esse trabalho, e no experimento, colocam bebês de tip top rosa e depois azul para ver a reação dos adultos na relação com eles e como isso influencia a criança.

O que se é, é diferente do que se aprendeu a ser. A educação tem duas finalidades : a primeira é transformar a nossa vida, e a segunda , precisa ser curativa, nos curar da nossa estória.

Freud e a descoberta do inconsciente foram fundamental para a cultura.   Estamos vivendo o tempo da física quântica, a velocidade aumentou, nos abrimos pra outras realidades e agora temos mudanças instantâneas. Antes estávamos vivendo o tempo da física mecânica.

Quero falar sobre o senso da falta e da escassez. Desde pequenos aprendemos que o que vem fácil, vai fácil. O não esforço nos dá uma culpa danada. Nesse paradigma também cabe a reclamação, que é gêmeo do esforço. Esforço é o peso emocional que colocamos na vida.

Só que oxigênio, luz solar e água caem do céu ! E isso cai fora do paradigma da escassez. Tem gente que não sabe viver sem dor nem doença. A vida não desiste de nós. A dor é um sinal de que precisa acontecer uma mudança. A dor pode ser inevitável, mas o sofrimento é opcional. Não é o esforço que nos dá força. E quando estamos preocupados com subsistência, a gente não tem existência.

Mudar a formulação de realidade e colocar foco no positivo aumenta a energia, o sistema imunológico, secreta ocitocinas, dopaminas, endorfinas. Tudo a ver com a forma de pensar que afeta nossa performance, nossa saúde.

Nós não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. É preciso ampliar nossa visão de mundo. O cérebro não aprende com afirmações, mas com perguntas, por ex : Como mudar isso ? Como aprender ? Etc..

Esso é um método. Quanto nos perguntamos sobre o que de fato queremos saber ? Precisamos duvidar de quem somos. As possibilidades são amplas. Um arquétipo antigo é sempre um sapato apertado.

Mudar de mundo é mudar de olhar. A gente sempre precisa atualizar a lente. Há que se ter muita delicadeza com as grades de cada um ; elas tiveram uma finalidade, mas precisamos descobrir que elas não são a nossa vida. E não é só tirar a grade, é compreender a vida, é evoluir para um campo maior.

E o propósito é encontrar a si mesmo e não mudar o outro. Todo o conhecimento é para aumentar a compaixão. Enquanto não nos transformamos, o mundo não se modifica. A nossa auto transformação é a maior construção para a humanidade.

Gestão de processos para revisão das nossas visões de mundo para saber qual a nossa verdadeira natureza. Somos essencialmente átomos. O átomo é a qualidade energética do Universo manifesto, e ele é abundante. Tudo o que queremos materializar na vida depende de átomos.

Um campo quântico é um campo atômico. A essência onde tudo se manifesta. Quando estamos bem, é como uma dança cósmica. Qualquer estresse ocasiona problema nesse campo. Os radicais livres envelhecem, adoecem e são produzidos por estresse. O excesso de elétrons no corpo produz os radicais livres que oxidam o campo atômico.

Se considerarmos o átomo um primeiro nível de organização, o segundo é o molecular, e é aí que aparece a vida. O átomo tem a ver com energia e a molécula com informação.

Um terceiro sistema que se organiza é a célula, que tem função de excreção e secreção. Assim, velhice é passar fome, é uma nutrição que não se faz.

O quarto processo é o orgânico, e esse é visível a olho nu. Ele só mostra o que está acontecendo nos processos anteriores. O campo atômico e o campo molecular são extremamente afetados pelo estado hormonal.

Estresse é uma forma de ver o mundo. É uma resistência que apresentamos quando a realidade não é como queremos, quando resistimos àquilo que é. As coisas são como são. O corpo de um bebê é alcalino, e de um velho é ácido. Gestão de estresse é fundamental.

Pensamentos danosos adoecem. Amadurecimento é diferente de envelhecimento. O primeiro é um processo biológico, e o segundo, um processo cultural.

Meditação constrói um campo quântico mais harmonioso. Sai do campo dos pensamentos que abalam o sistema e abre o campo para a vida. É preciso entrar em níveis mais profundos para fazer mudanças mais significativas.

Os nutrólogos dizem que tem cinco ( 5) elementos danosos para o organismo : heroína, cocaína, farinha branca, sal branco, açúcar.

Arte como elemento curativo é uma boa dose de medicação diária.

Estamos apenas no começo da Era Quântica. A nova ciência, a nova performance para tratar essa nova realidade transpessoal.

A grande descoberta do século 21 é o ser humano. Qual o desafio da humanidade nesta época ? Somos uma substância pensante e modelamos o que somos de acordo com o que pensamos. E somos altamente modeláveis.

Sobre a impecabilidade da palavra . Somos habitados por símbolos e precisamos ter responsabilidade sobre nosso próprio campo. Há que ver o melhor do mundo e semear em si mesmo o mais belo, o mais formoso, e cultivar a bem aventurança. Treinar e constituir outra forma de realidade. Limpar o campo quântico do mal dizer da vida. Nós nos tornamos melhor naquilo que treinamos mais.

Estamos todos a serviço da Grande Vida e nesse campo há trilha, não tem caminho pronto nem pavimentado.

Depressão é quando você recebe o plano A para a vida, e se ele não funciona, você não tem um plano B. Como lidamos com frustração ? Ou tentamos de novo a mesma coisa, ou tentamos de outro jeito, ou vamos fazer outra coisa. A curva invertida da ação é a depressão. E ela tem a ver com a percepção das escolhas do campo da liberdade. É preciso que reformulemos nossa visão de vida.

Não tem nada melhor do que sair da ilusão. As nossas ilusões não comportam a multiplicidade da realidade. Quando ampliamos a nossa visão estamos nos libertando. Desiludir-se é expandir-se.

O desafio de amar é o desafio de amar as pessoas como elas são. Então primeiro temos que duvidar. Somos nós os indivíduos que constroem as bases da nossa liberdade. Mas o processo de investigação é fundamental. Tem também a ver com a questão dos talentos que estão disponíveis e que não percebemos, portanto não usamos.

No paradigma da escassez estamos acostumados a economizar até nos dias especiais. Para ser especial tem que ser raro ? Quem falou isso ? Porque estamos seguindo isso que não tem a ver com o campo da felicidade ? Temos que ter a medida da felicidade. Tem gente que economiza de si até os sonhos. O pior dos desperdícios humanos é a economia de si mesmo.

As coisas na vida são impermanentes. A vida não é para dar certo, é para ser vivida. Ela não é uma utilidade, é uma experiência. Temos que nos orientar a partir de um campo amoroso. Será que há um cenário maior de vida, um sagrado que pode ser plenamente vivido ? Há algo que podemos fazer com que abramos as asas para encontrar todas os cenários e viver todas as aventuras para sermos plenos ?

Göethe chama de “campo decisório “o lugar aonde fazemos nossas escolhas. Quando a gente diz sim para a vida, uma enorme quantidade de energia se dispõe para nós. Vamos ficar vivificados com uma poderosa força de transformação para fazer parte da nossa realidade. Às vezes a ignorância nos protege, porque, se soubéssemos o que aconteceria, não teríamos dito sim. Mas trilhar uma trilha completamente nova significa estar aberto para os processos que vão acontecendo no meio do caminho.

É o caminho que nos prepara. Segundo Roberto Crema, nós somos as pessoas por quem estamos esperando. Não tem resposta pronta para aquilo que não está feito. É muito importante se dar conta do que não se sabe.

Segundo Sócrates, tudo o que o indivíduo sabe é uma aura luminosa de saber sobre ele, e quando vai aumentando essa aura, o indivíduo vai percebendo que sabia pouco. A sabedoria é o conhecimento da própria ignorância. “Tudo o que sei é que nada sei “.

Os 22 arcanos do Tarot são uma referência milenar. Temos ciclos de aprendizagem de hábitos que é de 21 dias. Mais de 60% de hábitos podem ser mudados nesse tempo. Isso tem a ver com circuitos cerebrais , caminho neuronal. Todos os padrões de comportamento que temos foram aprendidos. Assim que, se todos os dias trabalharmos um propósito durante 21 dias, isso permite que façamos mudanças extraordinárias.

Há uma coincidência dos setênios, que é a forma de compreender a vida em ciclos de 7 anos, com o campo biológico arquetípico do matemático Fibonacci. A cada período “x” de vida temos janelas conscienciais e podemos fazer limpezas para estarmos disponíveis.

Quando usamos nosso poder, nossos dons e talentos, isso é uma medicina para a humanidade. O que é que, como dom, trazemos para a humanidade ?

O Brasil tem um imenso patrimônio imaterial. Por ex. nas populações ribeirinhas do rio Amazonas, existem duas parteiras para dar à luz às crianças que nascem. A primeira parteira traz a criança ao mundo, e a segunda, é a parteira do dom da criança. Assim que, nós todos podemos fazer o parto dos nossos próprios dons.

Viver é um campo maior do que sobreviver.

Até agora vimos conceitualmente as questões de paradigma, de constituição de realidade e gestão do campo da vida. Precisamos agora revisar o campo das percepções. E nos perguntar : qual a minha vocação neste mundo, independente da minha profissão ?

A vocação é descobrir “quem eu sou“.Como vou descobrir o que é meu e o que não é ? A filosofia dá um encaminhamento a esta questão. Dedicar-se suficientemente ao autoconhecimento. Estar em estado de atenção é o primeiro requisito. Dar tempo para a atenção que já é por si um milagre. Há sempre um treino a ser feito. Demanda desligar-se do que não se é e preparar-se para o que se é.

O maior filósofo vivo hoje é Ken Wilber e precisamos estudá-lo para entender a sua filosofia. Ele tem uma prática diária de meditação por 3 horas, depois lê durante 4 horas sobre qualquer coisa que lhe interesse, e depois disso produz por uma hora. Dedicação é o tempo para preparar o melhor de si mesmo.

Sobre as vantagens de ir ao interno encontrar-se consigo mesmo. Aristóteles percebe que tudo é construção, e a base para construir a vida são os hábitos. Mudar hábitos é angular e isso muda a dimensão do que é visto. Ou somos iluminados, ou precisamos dos paradigmas para chegar à iluminação. Por ex., precisamos aprender limites no mundo da dimensão.

Jung fala dos 12 passos para educar a criança arquetípica. O primeiro é dominar a própria violência para aprender a conviver. Precisamos fazer o caminho de ajustar o Ser ao Estar. A Escola da Ponte, a Escola Waldorf, a Escola Construtivista são propostas para desenvolver isso na criança.

Do ponto de vista cerebral sabemos hoje que só acessamos 15% do cérebro, assim como os aplicativos disponíveis no celular que não usamos. Nossa capacidade cerebral é muito maior do que aquilo que estamos preparados. Há que se conviver com o que não se sabe, com o mistério. E a finalidade disto é nos abrirmos para o que é maior do que nós.

No processo filosófico só há um jeito de ensinar : é dar testemunho de um caminho. E quando a gente olha esse testemunho, a gente vê e decide do que se aproximar ou não .

É preciso enxergar o potencial no humano que está ao nosso redor e permitir que ele floresça. Precisamos ver a árvore implicada na semente. A gente precisa de fé para olhar para o indivíduo em confiança e ver que ali cabe todo o potencial da humanidade. Fé de que as pessoas são capazes de florescer.

Claude Lévi Strauss passa muito tempo com as tribos indígenas brasileiras e faz uma síntese da visão de mundo deles. De alguma forma nós herdamos a visão européia de mundo ao invés da visão indígena. Esta última vê que no outro há algo de divino ; para eles os espanhóis eram deuses, e para os espanhóis, os índios sequer eram humanos.

Kaka Werá diz que segundo os anciãos das tribos, agora estamos vivendo o tempo do sopro, e não mais da erva. Estamos todos ligados ao grande pulmão vital que é o oxigênio . A ciência está descobrindo o campo quântico. Aprender a respirar é uma grande tarefa.

Para Gurdiev e a tradição sufi, na respiração o indivíduo se ilumina. Quando perdemos a noção do todo somos presas fáceis da normose. E em Jean Yves Leloup, nos inteiramos das práticas dos terapeutas do deserto.

O mundo é um espelho de uma realidade íntima. Hermes Trismegisto nos fala que tudo está em relação com tudo. Somos sementes de mundo . Precisamos nos recolher na caverna da consciência e re orquestrar o campo para encontrar a resposta perfeita para uma vida bem vivida.

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Síntese da palestra de Dulce Magalhães

Seminário inserido na Pós Graduação de Psicologia Transpessoal

Setembro 2015

Published in: on 28/10/2015 at 7:30 p10  Deixe um comentário  

Os Desafios dos tempos atuais

O que está mudando hoje, tanto dentro quanto fora do ser humano ? Não sei as exigências dos tempos atuais, mas queria compartilhar alguns pontos que poderiam indicar essas mudanças.

Quero questionar uma posição que pode estar indicando a ligação com o que toda esta problemática está relacionada. O que está provocando a origem dos problemas atuais ?

O que acho que mais radicalmente mudou nesses 100/150 anos foi o espírito. E aqui, não estou falando do espírito dos tempos, nem o espírito dos elementos. Estou me referindo ao espírito em si.

O que é o espírito ? No que reconhecemos a existência e a atuação dele ? A expressão do espírito se manifesta no fato do ser humano poder mudar.   Ele nunca permanece o mesmo. Nos modificamos de acordo com a situação dada, na relação com alguém. E mesmo assim, somos os mesmos, porque sabemos muito bem que, até o encontro com determinada pessoa, nunca pensamos, sentimos ou agimos da mesma maneira. Somos algo que permanece sempre o mesmo, que é a ação passada do espírito, e ao mesmo tempo, nos tornamos outro, que é a ação presente do espírito.

O permanente e o “em mudança” é uma relação constante: eu sou o espírito que fui e eu serei  o espírito ativo no presente se modificando para o futuro. Eu sou e eu serei, são modalidades diferentes de espírito. Espírito a gente não vê, nunca ninguém viu o Eu, mas a gente percebe as manifestações do Eu. O que vemos na corporalidade do homem é o Eu do passado, o espírito do passado.

De maneira que de fato vemos o Eu. E hoje os seres humanos são cada vez mais diferentes uns dos outros, principalmente nas suas fisionomias.

Existe uma fotógrafa italiana que a partir de 2016 se tornará muito famosa, Georgia Fiorio, que já fez muitos projetos interessantes, por ex., um deles que durou 5 anos aonde se propôs a tornar o espírito visível. Ela estava convencida da existência do espírito, queria retratá-lo em mudança, e para isso visitou várias comunidades espirituais aonde as pessoas vivem para e a partir do espírito. Mergulhou na prática espiritual dessas pessoas, nas meditações, nos exercícios, e depois de meses, ela começou a fazer milhares de fotografias. Então avaliou as fotos com as pessoas da comunidade, os gestos, as posturas, as fisionomias, e disso surgiu um livro , “Rituais”, onde, de cada comunidade, ficaram resumidas profundas e comoventes imagens que podem afirmar, através dos movimentos do rito, a manifestação do espírito.

Um outro projeto que ela fez foi fotografar bustos de egípcios do passado em diferentes ângulos ; neste trabalho se percebe algo que, a cada momento, é o mesmo e, ao mesmo tempo, outro. Esta exposição será apresentada no museu do Louvre no ano que vêm.

A filosofia ocidental se inicia quando começamos a reconhecer o mesmo no outro, ou o outro no mesmo. Em Sócrates e nos diálogos de Platão, o “normal” começa a ser questionado.

Hoje não vivemos mais na percepção, mas na representação que compartilhamos, porém de fato, não vemos o que está aí – o mesmo e o diferente. Isso gera um problema em nós. Com esse desafio exercitamos realmente o olhar, a percepção começa a ser só o ponto de partida.

O que está mudando hoje em dia ?

Até o final do século XIX desde o início dos tempos, o movimento do espírito foi no caminho da diferenciação e o espírito se diferenciou, a atuação do espírito provocou que as coisas se separassem umas das outras.

Se hoje temos diferentes línguas, religiões, concepções de mundo, predileções, isso tudo é fruto da diferenciação do espírito. Para os cristãos os muçulmanos não são tão bons, para os muçulmanos, os judeus não são tão bons, para os judeus, os indianos não são tão bons, e assim por diante.

Isso porque “o meu grupo” acredita que possui a verdade, ou pelo menos, a melhor opção. Durante algumas décadas, a Antroposofia também achava isso e considerava que suas concepções eram as corretas. E isso é uma manifestação do espírito passado, mas o espírito hoje atua de forma diversa. Hoje o espírito integra.

O espírito antigo criava diferenças e o de hoje procura relações. Isso significa que, para o cristianismo, o islamismo se torna muito interessante, que para o islamismo, o judaísmo se torna muito interessante, que para o judaísmo, o induísmo se torna muito interessante. O ser humano começa a se abrir para o diferente, mas não para se tornar o diferente, e sim para se modificar.

Mantemos a individualização, ninguém será como o outro, mas começamos a nos interessar pela diversidade do outro. Não porque se trata de um valor moral e sim porque se trata do próprio espírito. Não temos que convencer o outro das nossas próprias convicções, mas cada um se integra mais ao espírito, se torna mais integrativo na vida.

Tentar convencer o outro da própria convicção não atua mais no espírito, isso é passado, não tem futuro, como o dogma. Poder viver de acordo com as próprias convicções sem tentar convencer os outros, e ser curioso de conhecer a concepção do outro, isso é o espírito do presente.

Imaginem isso no âmbito da experiência de Deus. Tentar ter a coragem de acreditar na sua própria experiência de Deus e não tentar comparar com a experiência de Deus dos outros. De viver a experiência própria de Deus com prazer e de não encontrar outros no qual o espírito está atuante. Ter um interesse livre no outro.

O espírito livre não se deixa irritar pelo espírito escravizado do passado . O espírito livre tem uma imensa alegria na diversidade do outro, no crescimento das possibilidades e principalmente na transformação de si mesmo e do outro.   “Que eu permaneça o mesmo mas me torne o outro”. O futuro é espiritualmente cosmopolita, integrativo e não exclusivo.

Individualidade surge a partir do momento da individuação do espírito. Esse individualismo afirma : eu não sou como você, e no fundo, sou melhor que você e vejo muitos defeitos em você e poucos em mim mesmo. A forma integrativa do espírito sente alegria na diferenciação dos indivíduos e se alegra na diversidade das diferenças.

E essa é a transformação do espírito da atualidade. Ao mesmo tempo que estamos diante de guerras de fundamentalismo religioso, estamos testemunhando a valorização da tolerância entre as pessoas, da auto determinação e da dignidade individual do Ser. Essas duas coisas estão acontecendo simultaneamente. O último levante do espírito do passado e uma formulação intelectual e ética do espírito integrativo.

O espírito integrativo já está presente na formulação intelectual das pessoas, mas ainda não saiu do intelecto para a vida. Nesta esfera ainda estamos na fase do espírito anterior.

Será que podemos nos decidir a distinguir as diferenças de espírito ?   Pessoalmente eu me decido pelo espírito integrativo ao invés do espírito separatista porque o futuro não virá sozinho e não virá naturalmente. Ele só virá conscientemente, ele precisa da nossa decisão porque nós queremos nos tornar cidadãos do futuro. Se não nos decidirmos por ele, o espírito conservador vai continuar e de forma destrutiva.

Até o século XIX o espírito separatista atuou em prol da individualização. A transição começa a partir do século XX com o totalitarismo, o fascismo, o comunismo, o capitalismo , que conduzem a genocídios e formas totalitárias até hoje. Em todos os lugares a vida é destruída a partir de uma concepção que quer se impor.

Vemos a partir do século XX o economismo determinando a estética do nosso mundo urbano. Vemos também a possibilidade da hospitalidade ser um valor maior do que o lucro e a solitude podendo ser considerada o maior valor para o ser humano, a qualidade mais bela. Rudolf Steiner desenha um mundo onde o maior valor é a liberdade.

O economismo e as conseqüências devastadoras do mercado livre , pode ser agora avaliado no que vemos acontecer no mundo com os refugiados.

A virtualização do mundo é um outro fator a que assistimos mais recentemente. Quanto tempo cada um hoje vive com seus aparatos no mundo virtual ? Não quero dizer que é ruim, mas eles prejudicam o espírito integrador e mantém no poder o espírito do passado. O século XX é de transição entre o espírito separatista e o espírito integrativo.

O totalitarismo, o economismo e a virtualização são expressão do espírito diferenciador retardatário. O espírito atrasado se torna mal. E o que significa mal ? Significa que o espírito começa a desrespeitar o ser humano e que sua humanidade é desrespeitada. Percebo que hoje, em todos os lugares do mundo, as almas das pessoas estão cada vez mais sensíveis ; muito inteligentes e exigentes, ou seja, precisando de muita coisa. Cada um é tão rico e tão sensível em sua alma.

Assistimos hoje a muitos conflitos entre grupos de pessoas, entre famílias, e cada um é muito sensível, frágil e inseguro – ou seja, tocável. E por ser tão tocável, fica-se com vontade de se distanciar do outro. E agora se trata de descobrir como se consegue estipular a relação entre proximidade e distanciamento. As duas dinâmicas acontecendo ao mesmo tempo.

Há a necessidade muito aguda de liberdade que cada um vivencia. Se agora passarmos a considerar a sensibilidade das almas como um pressuposto, vamos atuar de forma diferente. Pressupor a susceptibilidade nos leva a atuar de forma diferente. Se somos muito suscetíveis, tudo nos agride.

Precisamos observar quando somos sensíveis e quando somos suscetíveis. Na sensibilidade conseguimos absorver o mundo, e na suscetibilidade, tudo nos fere. O maior valor hoje é a transformação. Na medida em que nos transformamos, mesmo pouco, isso nos permite perceber o espírito.

Podemos procurar situações em que tenhamos prazer em mudar, por exemplo, nas comunidades de amigos, aonde aconteça experimentação psicológica e espiritual. A percepção do espírito integrativo começa na capacidade de transformação de nós mesmos. E o inverso nos aprisiona ao espírito conservador. A força de transformação é nosso bem maior.

Palestra proferida no Auditório da  Sociedade Antroposófica

Bodo Von Plato

15/09/2015

Published in: on 26/09/2015 at 7:30 p09  Deixe um comentário  

Dores e Alegrias

Quem olha para o seu destino com sentimentos despreconceituosos, como se tivesse querido as suas dores, experimenta algo muito particular quando observa seus prazeres e alegrias. Ele não se concilia com estes últimos, como com seus sofrimentos. Para nós é fácil achar consolo no sofrimento, e quem não acredita nisso tente se  aprofundar . Mas é dificil se conciliar com alegrias e prazeres. Se alguém quiser se interiorizar profundamente no estado de ânimo de ter querido seus sofrimentos, ele não poderá deixar de se sentir profundamente envergonhado se projetar isso para seus prazeres e alegrias.

Ele experimentará um correto sentimento de vergonha e esse sentimento de vergonha não poderá ser superado a não ser que se diga: não gerei meus prazeres e alegrias por meio do meu próprio Carma! Esta é a única cura, do contrário o sentimento de vergonha poderá ser tão intenso que nos destrua a alma. A única cura está em não se supor mais esperto, pelo fato de ser levado para as alegrias. Com este pensamento se percebe que assim é, pois com este pensamento o sentimento de vergonha desaparece.

Os prazeres e alegrias nos acontecem na vida como algo que nos é dado pela sábia direção dos mundos, sem a nossa participação. Algo que temos que receber como uma graça e algo do qual devemos reconhecer que está determinado para nos colocar dentro do cosmo todo. Os prazeres e alegrias devem agir de tal forma em nós nos momentos festivos da vida, nas horas solitárias, como uma graça. Uma graça das potestades, todas do Cosmo, que querem nos acolher em si.

Então, enquanto através das dores e sofrimentos chegamos a nós mesmos e nos tornamos mais perfeitos, através de nossos prazeres e alegrias desenvolvemos, mas só se os tomamos como graças, aquele sentimento que só pode ser caracterizado como um sentimento de um repousar inefável nos poderes divinos e forças do Cosmo. E a única atitude correta perante os prazeres e alegrias é a gratidão. Ninguém se relaciona corretamente com os prazeres e alegrias, sem as horas solitárias do auto conhecimento.

Se associarmos estes prazeres e alegrias ao nosso Carma, nos entregamos a um erro que enfraquece o espiritual em nós e nos paralisa. Cada pensamento de que os prazeres e alegrias são merecidos por nós, nos enfraquece e paralisa. Isso pode parecer duro, pois alguns gostariam, que da mesma forma que associam a sua dor com algo que foi desejado para si mesmo e como algo que lhes chegou através de sua própria individualidade, gostariam de se sentir senhores de suas alegrias e prazeres.

A observação comum da vida nos ensina que prazeres e alegrias tem algo de dissolvente. Nunca este elemento dissolvente do prazer e da alegria conseguiu ter sua melhor expressão do que no “Fausto” de Goethe, onde este elemento paralisante na vida humana se torna perceptível com as palavras: “Assim cambaleio eu dos apetites para os prazeres e nos prazeres anseio por apetites”.

Quem reflete um pouco sobre a influência do prazer, quando é tomado pessoalmente, perceberá que o prazer tem algo que nos leva a uma vida titubeante e dissolve a nossa individualidade. Mas isto não deve ser uma recomendação para nos submetermos a autoflagelação e para nos fixar acom tenazes ardentes. Não deve ser assim. Mas o fato de reconhecermos corretamente uma coisa, não significa que tenhamos que fugir dela. Nós temos que aceitá-la tranquilamente, assim como ela nos aparece, mas temos que desenvolver o ânimo de que experimentamos como uma graça e quanto mais for assim, tanto melhor seremos capazes de penetrar no divino.

De forma que estas palavras não são ditas para predicar o ascetismo, mas para despertar o ânimo correto perante o prazer e a alegria.Não deve ser assim. Mas o fato de reconhecermos corretamente uma coisa, não significa que tenhamos que fugir dela. Nós temos que aceitá-la tranquilamente, assim como ela nos aparece, mas temos que desenvolver o ânimo de que experimentamos como uma graça e quanto mais for assim tanto melhor seremos capazes de penetrar no divino. De forma que estas palavras não são ditas para predicar o ascetismo, mas para despertar o ânimo correto perante o prazer e a alegria.

Quem afirmar que o prazer e a alegria tem algo de paralisante, dissolvente, por isso ele se afasta do prazer e da alegria o ideal do falso ascetismo, da autoflagelação, se afasta da graça que lhe é presenteada pelos Deuses. E no fundo, as autoflagelações dos ascetas, dos monges e das freiras, são contínuas rebeliões contra os Deuses. O certo é que nós sintamos as dores como algo que nos provém do nosso carma e que sintamos as alegrias como uma graça como uma inclinação do Divino para nós. O prazer e a alegria devem ser encarados como um sinal de quanto Deus se aproximou de nós, e a dor e os sofrimentos devem ser encarados como um sinal do quão longe estamos daquilo que temos de atingir como seres humanos.

Esta visão dá o ânimo fundamental perante o Carma, e sem esse ânimo fundamental perante o Carma nós não podemos em verdade progredir na vida. Temos que sentir que por trás daquilo que o mundo nos trás como bom, como belo, se encontram os poderes dos quais a Bíblia escreveu: “…e eles viram que ele era belo e era bom, o mundo ”. Mas enquanto nós precisarmos sentir o sofrimento e a dor, temos que reconhecer no decorrer das encarnações o que o homem fez no mundo, o qual era bom no começo e que ele deve melhorar enquanto ele se educa para uma enérgica tolerância das suas dores.

Palestra proferida por Rudolf Steiner

08/02/1912

Published in: on 26/05/2015 at 7:30 p05  Deixe um comentário  

A Biografia Humana como Caminho Iniciático

“Se você quiser conhecer o mundo, conheça a si mesmo, e se quiser conhecer a si mesmo, conheça o mundo ”  Rudolf Steiner

Como este tema é muito grande e muito próximo do meu coração, hoje posso compartilhar alguns pensamentos do meu entendimento sobre a imagem do ser humano do ponto de vista da Antroposofia, e também, como um ser humano desta época.

A partir do gráfico da curva biográfica que mostra a vida terrena em períodos de sete (7) anos dos 0 aos 63 anos, a metade aos 31 ½  , gostaria de falar sobre o caminho de encarnação e excarnação do ser humano. Depois da morte temos a oportunidade de olhar para traz e avaliar como essa vida se passou, e até chegar esse momento, fazemos uma viajem muito longa, em diferentes níveis ascendentes pelas esferas planetárias.

Quero falar sobre uma grande visão cósmica que R.Steiner nos dá quando chegamos no ponto de virada , e sobre a avaliação que fazemos antes de voltarmos novamente à Terra através das esferas planetárias preparando a nossa próxima vida. Este ponto de virada se chama meia noite cósmica.

Neste trajeto, a nossa consciência vai se ampliando ,e  nosso espírito, que é um órgão muito grande de sentidos , nos possibilita perceber o Ser do Cristo ao nosso lado, e desse modo, avaliarmos como contribuímos com nossas vidas passadas para o desenvolvimento da Humanidade como um todo. Olhando através dos olhos do Cristo , podemos vislumbrar o futuro e o que precisaremos fazer, qual o tipo de vida teremos que viver para continuar a contribuir com a Humanidade.

Nosso próprio desenvolvimento pessoal está conectado com o desenvolvimento da Humanidade e é no ponto de virada , na meia noite cósmica, que definimos nossas intenções primordiais. A semente espiritualizada do nosso coração é aí formada e R. Steiner nos diz que o coração é o órgão com o qual podemos perceber o nosso Carma.

Podemos então observar dois aspectos : 1) quando venho com o meu Ser e faço a minha contribuição ao mundo ; 2) quando quero continuar o meu próprio desenvolvimento pessoal.

No ponto de virada podemos ver todas as pessoas com quem temos uma rede de desenvolvimento e que estão ligadas à nossa missão na Terra.    Quando nascemos, chegamos abertos para receber o que as pessoas nos dão e com curiosidade para o que vem ao nosso encontro.

Passamos por ciclos de 7 anos aonde o foco está, em cada período, em um membro específico do nosso Ser: dos 0 aos 7 no corpo físico, dos 7 aos 14 no corpo etérico, dos  14 aos 21 no corpo astral, e quando esses 3 corpos estão preparados, nosso Eu pode então nascer. Nos primeiros 21 anos absorvemos do mundo e somos impregnados com o que as pessoas nos dão e assim formamos o conteúdo da nossa alma. Todo esse caminho é no sentido de desenvolver o Eu como instrumento, aí esse Eu pode tomar a biografia como instrumento para o desenvolvimento .

O nascimento do Eu é o momento que damos um passo para fora da família e, ao mesmo tempo, um passo para dentro da própria vida e assumimos a responsabilidade por ela. A nossa biografia é a coisa mais preciosa que temos e somos exclusivamente responsáveis por ela.

O que fazemos com nossa biografia é uma experiência pessoal. Quando damos esse passo em direção à nossa própria vida temos 3 ciclos para desenvolver a nossa alma, e depois mais 3 ciclos para desenvolver o nosso espírito. A fase dos 21 aos 42 anos é para interação, e a fase dos 42 aos 63 anos, para devolver o que recebemos ao mundo, fazer a nossa contribuição ao desenvolvimento da Humanidade.

Essa é uma tarefa que podemos assumir e que não acontece por si , pois o Eu só se desenvolve através da nossa própria atividade e nada mais. Podemos olhar para a nossa vida passando por esses setênios como uma espiral, olhando de vários pontos diferentes, e o tema da nossa vida não precisa ser resolvido, mas ela precisa ser vivida através do nosso Eu. A Humanidade também tem esses estágios e ciclos, mas em uma amplitude muito maior de tempo.

Agora estamos na chamada época da Alma da Consciência, chegamos apenas no começo, mas temos que cumprir com a tarefa desta época. O que exatamente isto significa nesse momento ? Temos como potencial o ciclo entre 28 e 35 anos e R. Steiner disse que durante esses 7 anos temos a possibilidade de olhar para a nossa vida do lado de fora e essa é a maior emancipação que o ser humano pode fazer – olhar a própria vida como se ela fosse de uma outra pessoa no sentido de entrar em contato com o próprio Eu. Encontramo-la do lado de fora e do lado de dentro, e tudo o que vem ao nosso encontro tem a ver conosco ; as pessoas que encontramos no mundo espiritual, as encontramos agora novamente.

Todos os eventos que acontecem, revelam alguma coisa da pessoa que somos. Precisamos aprender a olhar para isto. Olhar para dentro, para o próprio pensar ,sentir e querer, e saber que somos muito mais que isto.   Quando damos um passo para fora,criamos a possibilidade de nos desidentificar para, em seguida, nos re identificar conosco mesmos, e isso só pode ser feito ativamente. Esta é a pré condição para o desenvolvimento da Alma da Consciência que acontece no ser humano na fase entre os 35 e 42 anos.

Depois de ter vivido um certo tempo, podemos nos fazer algumas perguntas , como por ex : É essa vida que quero viver ? Estou realizando o que vim aqui para fazer ? Isso nos obriga a definir nossos próprios valores e a possibilitar que nos tornemos uma autoridade interna, independente da externa. Traz responsabilidade para definir nossos próprios valores que são desenvolvidos por nós mesmos individualmente, o que define aquilo que sustentamos e para que queremos usar nossa vida, com o que queremos contribuir. Ninguém pode nos dar isso.

Quando olhamos para o nosso tempo atual enquanto Humanidade, chegamos a esse limiar e podemos nos perguntar : o que posso fazer ? Somos o centro da nossa vida e por outro lado temos a possibilidade de, com toda a tecnologia, ver bem longe no Cosmos e perceber como ele é grande e é nessa casa que moramos. Vivemos nesses dois pontos.         Nessa época da Alma da Consciência somos capazes de fazer viagens pelo Cosmos e olhar tudo do lado de fora.

Nesta nossa época nenhuma vida é fácil e para desenvolver a Alma da Consciência individualmente temos que enfrentar testes e desafios que encontramos na nossa própria vida. Como Humanidade estamos neste ponto de virada e nos perguntamos o que fazer desse mundo. O desenvolvimento apenas acontece quando encontramos as forças adversas, assim temos que conhecer o mal e como essas forças atuam.

O que  Ahriman traz para nós ? Ele é muito inteligente ,ele tem a ver com poder e isso tem a ver com a nossa época.        A tecnologia tem a ver com controle o tempo todo e com todo mundo – vide facebook, google, etc… Temos que nos perguntar o que está por traz de uma força que quer nos empurrar numa direção. Ahriman precisa do nosso livre arbítrio para operar, precisamos estar atentos à sua sedução e como cedemos a ele.

Um grande cientista da atualidade, Stephen Hawking, fala sobre inteligência artificial e que estamos numa corrida entre o avanço da tecnologia e a sabedoria para podermos usá-la, e que, no futuro talvez não mais existirá a pergunta “quem está controlando ?”. Então, como podemos desenvolver significados e caminhos para lidar com isso ? O que queremos fazer com a Terra ? Como queremos viver aqui ? Nós temos que decidir e não deixar outros decidirem por nós.

Todos estamos encontrando esta situação em nossas vidas pessoais, nem precisamos olhar muito longe, a própria vida está trazendo isto para nós. O poder das forças adversas se realizando no mundo externo e também na nossa alma é um campo de batalha. E é através das nossas próprias crises que temos que olhar interna e externamente para podermos aprender a conhecer este fenômeno e decidir o que fazer com isso.

Quando conseguimos olhar para a profunda conexão que temos com a evolução da Humanidade, é aí que podemos ver como fazer a nossa contribuição. Nossa vida pessoal é muito íntima, só pertence a nós mesmos, mas, ao mesmo tempo, estamos vivendo com a Humanidade.  Trabalhando nos desafios da nossa própria biografia podemos fazer a nossa contribuição pessoal, mas para que isso aconteça, é necessário que tudo passe pelo nosso próprio Eu.

Os desafios que vieram ao nosso encontro no passado fizeram de nós o que somos agora. Temos que aprender a olhar a própria vida de maneira objetiva. Assim poderemos olhar para os eventos externos, que estão do lado de fora, e ver a correspondência interna na nossa alma. Quando observamos os padrões e o fio vermelho da nossa vida , o sentido  resplandece, descobrimos  porque agimos de determinada forma e porque as coisas vem na nossa direção. E quando isto acontece, brilha uma confiança na existência do mundo espiritual e percebemos que existem forças criativas por traz de tudo.

Desta forma, nos damos conta do sentimento de estarmos totalmente sós e, ao mesmo tempo, nunca estarmos sós. O mundo espiritual está conosco o tempo todo, mas ele precisa ser conhecido por nós. Steiner fala de três qualidades a serem desenvolvidas nessa época :

  • Compreensão social, entendimento prático da vida. Não dá para ler isso nos livros, acontece quando aprendemos a nos ouvir uns aos outros e necessita de um profundo interesse de um ser humano para outro. Através disso podemos aprender uns com os outros.
  • Liberdade da vida religiosa. Isso significa uma profunda tolerância com o que acreditamos, aceitação de que crenças são pessoais e que cabe a cada um construir suas próprias crenças. Dar liberdade a cada um para ir em busca de sua própria verdade, deixar cada um livre para fazer essa escolha.
  • Precisamos adquirir um conhecimento vivo do mundo espiritual, aprendermos a nos relacionar com ele para que ele possa se relacionar conosco. Existem forças criativas que estão por traz da criação esperando por nós para podermos trabalhar juntos.

O começo da Alma da Consciência é o começo deste caminho. No passado haviam os Centros de Mistério que tinham ritos específicos de Iniciação e eram secretos. No nosso tempo todos os segredos estão revelados, acontecem nas crises das nossas vidas e depende de nós estarmos despertos ou adormecidos para a possibilidade de Iniciação que existe aí.

Os desafios nos ajudam a conhecer a vida e ver que ela é esse caminho de Iniciação que estamos percorrendo todos juntos.

Palestra proferida por Anita Charton

Auditório da Sociedade Antroposófica

18/05/2015

Published in: on 21/05/2015 at 7:30 p05  Deixe um comentário  

A praga da violência coletiva

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e a justificam.

Um aluno um dia me perguntou o que eu achava do homem: naturalmente bom mas pervertido pela sociedade, na linha do “bom selvagem” de Rousseau, ou esta desgraça mesmo que vemos por aí, em estado natural? Na realidade, não acho nem uma coisa nem outra. Acho que temos todos imensos potenciais para o bem e para o mal, para o divino e a barbárie. Cabe a nós, que trabalhamos com o estudo da sociedade e em particular das instituições, pensar o que faz a balança pender mais para um lado ou para outro. Pois deixando de lado alguns traumas e deformações individuais, domínio dos psiquiatras, aqui nos interessa a misteriosa bestialidade coletiva de grandes grupos sociais.

Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Tenho minhas dúvidas, pois sou de família polonesa, e vi refletido nas angústias dos meus pais o que tinham vivido frente ao nazismo. Ninguém irá pensar que os alemães eram um povo de baixo nível educacional ou cultural. E no entanto, com que entusiasmo vestiram as botas e as camisas negras ou marrons, com que elevado sentimento de dever cumprido matavam pessoas por serem diferentes, por um critério real ou imaginário. Cerca de 50% dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. Isto é que é realmente preocupante. Estupidez é uma doença que pega.

Poder dar vazão ao que há de mais podre dentro de nós, de mais escuro em termos de ódio contido, de mais baixo em termos humanos, em nome de elevadas aspirações éticas, parece ser muito satisfatório. Os nazistas agiam em nome da pureza da raça. E erguiam bem alto a bandeira do “Gott mit uns”, Deus está conosco. Tornar-se de certa maneira o braço executivo da cólera divina parece ser profundamente agradável. Há gente disposta a morrer por esta satisfação.

Quem não leu O Martelo da Feiticeira, manual de interrogatório dos inquisidores católicos perdeu uma importante fonte de conhecimento sobre os nossos lados escuros. O manual recomenda, por exemplo, que os religiosos encarregados de torturar as possíveis feiticeiras as torturassem nuas, pois se tornam mais frágeis, e de costas para os torturadores, pois a era tal a perversidade destas mulheres que de frente para os torturadores poderiam comovê-los com suas súplicas e expressões de desespero. Eram religiosos, e o faziam em nome de Cristo.

Somos hoje mais civilizados? Sinto-me profundamente abalado, chocado, pelo bárbaro assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, por profissionais da morte que matam em nome de Deus, e que claramente mostraram nos seus gritos que se sentiam como justiceiros que haviam cumprido o seu dever. São monstros? Se fossem, seria muito mais simples compreender e prevenir. Mas são seres humanos em torno dos quais se construiu uma muralha de valores que os protege de qualquer crítica. Se sentem pertencentes a uma comunidade que os apoia e recompensa, ou seja, praticam a barbárie em nome do bem. Podemos matar os terroristas, mas transformar a dinâmica que os forma é bem mais complexo.

Podemos tratar um psicopata, e proteger a sociedade dos riscos individuais. E uma sociedade doente? Quem não viu Os fantasmas de Abu-Ghraib, veja, é profundamente instrutivo. O documentário é montado a partir de selfies e de filmagens por celular de práticas de tortura no Iraque por jovens americanos, contra supostos inimigos. Tortura praticada no Iraque em nome da defesa dos direitos humanos, por um exército invasor, e por funcionários de empresas privadas de segurança terceirizadas para esta tarefa. Estes jovens são monstros? As imagens das torturas e dos risonhos rapazes circulam em todo o mundo islâmico. Com que impacto e efeito multiplicador?

Hoje temos tortura sistemática aplicada pelo sistema repressivo (Mossad, Shin Bet e outros) em Israel. Em Guantánamo quando os prisioneiros tentam morrer para escapar ao sofrimento se lhes introduz à força alimento pelo nariz ou pelo anus, tudo em nome do bem, como em nome de Deus os fanáticos do ISIS decapitam prisioneiros ou os do Boko Haram raptam crianças.

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e organizam a sua expressão em nome da justiça, de Deus, da pátria, da pureza racial ou o que seja.

Ladislau Dowbor

Fevereiro 2015

Published in: on 13/03/2015 at 7:30 p03  Deixe um comentário  

O Ser Humano e as Forças da Natureza

 

Tem-se dito que estamos em uma crise planetária gravíssima, de alto risco para a espécie humana. A desagregação dos ecossistemas promovida pelas limitações da atual consciência humana centrada na ganância, usurpação, exploração indiscriminada dos recursos, semi escravização humana e outros fatos deploráveis, tem agravado situações sociais insustentáveis e gerado um sistema quase ininterrupto de pequenas e grandes crises.

No âmbito pessoal, estamos percebendo o agravamento também de diversos distúrbios : stress excessivo, depressões, cânceres, distorções no campo afetivo individual e familiar, surgimento de inúmeras novas doenças, etc, e fica a pergunta “Onde é que vai dar isso ?”

No entanto, do ponto de vista espiritual, a crise é um modo de possibilitar a evolução / maturação da alma. É a oportunidade de dissolver males gerados por situações conflitantes, por isso, ela pode ser também reconhecida como uma iniciação espiritual.

Arapoti é um ritual para a expansão da alma e compreende 7 etapas :

  • Crise
  • Encruzilhada
  • Sacrifício
  • A noite escura da alma
  • Morte
  • Purificação
  • Renascimento

A Terra tem 4 reinos – mineral, vegetal, animal e humano – e desses, 3 já cumpriram seus ritos de renascimento, mas o reino humano ainda está perdido em uma bolha de ilusão, isso é uma crise da Humanidade.

Para a tradição ancestral indígena há o princípio dos 3 mundos : matéria, psique e espírito. A concepção tupi da alma é trina e se chama Avá.

Na tradição, o ar que respiramos é o que mais se aproxima de Avá. É universal, está em todos os lugares, é o Eu Superior, a Essência Divina. Ava’ é a verdadeira mantenedora da vida, desse Ser interno que nos habita e que estrutura toda a nossa forma. A base é vibracional luminosa e se ancora no coração. Essa essência em nós deveria ser aflorada para assumir o comando de nossas inteligências.

A grande crise da alma passa de um estado fragmentado da alma para a reintegração dos aspectos : Subconsciente = Bo ; Consciente = Nheng ; Supraconsciente = Avá

Os mestres desta tradição desenvolveram métodos para que pudéssemos atuar no mundo de forma consciente através dos ritos. O fluir consciente da alma é dificultado por inúmeras crenças. Existem algumas camadas que dificultam o acesso consciente, algumas são coletivas, da humanidade, outras familiar, e outras são individuais.

Para a auto expressão individual, o propósito maior se viabiliza na medida que expandimos o Ser interno. As camadas devem ser dissolvidas e transcendidas. Segundo os mestres, não conseguimos dissolver os aspectos coletivos sozinhos, mas sim, em círculos e entrando em contato com princípios superiores.

Existem três modos de dissolver um padrão ou crença negativos.

  • Pelo rito , cuja função é a criação de uma linguagem própria onde determinadas forças são acionadas e, em contato com o padrão, ele é dissolvido. O subconsciente entende essa linguagem
  • Pela anamnese com a consciência para minar o padrão. Essa forma exige alguns recursos para discernir o padrão e levá-lo a ser identificado como uma lição em vez de um obstáculo
  • Pela aceitação da fonte espiritual que cura. É o espírito que cura.

A Alma é a gota e o Espírito o oceano.

Há 5 mil anos atrás existia uma tradição ancestral para o desenvolvimento do ser humano que focava no aprimoramento dos aspectos internos do Ser.

A liberação de alguns padrões e crenças exige sacrifício. As culturas humanas, em uma época passada, entendiam que uma das maneiras de obter resultado, era fazer sacrifício humano. Isso continua impresso em nós.Isso é um sacrifício distorcido. Será que a grande vida exige matança ?  Neste sentido sacrifício fica ligado a sofrimento.

O sacro ofício é um ofício sagrado. O verdadeiro sacrifício traz para si a responsabilidade do esforço para abrir determinados canais. Esse é o sentido ancestral espiritual do sacrifício, desidentificar-se do padrão para ampliar a conexão.

A repetição e o ritmo com disciplina tem a tarefa de liberar conteúdos arraigados subconscientes. O sacro ofício tem a ver com atitude e não exige nada em troca. Mas convém haver um reconhecimento, uma gratidão. Gratidão é reconhecimento da graça. O sacro ofício é a interiorização e o alinhamento da nossa energia de vida.

O que é a morte para cada um de nós ? Que tipo de impacto a morte provoca ? Que tipo de sensação ? Para algumas culturas é tabu falar da morte. Algumas culturas vivem como se esse fenômeno não existisse, não sabem se relacionar com este momento.

Para a cultura Bororo, de mais de 15.000.00 anos atrás, a morte física – Aroê – era reverenciada e significava o apogeu de uma vida. Era um presente glorioso da Terra que merecia ser festejado. Para a cultura Kamayurá, a morte é um momento de preparação para o nascimento em outros mundos melhores. São culturas aonde a morte é uma passagem.

O rituais em torno de uma fogueira são algo que, do ponto de vista da cultura humana como um todo é familiar a todos. É uma mandala ancestral e nos conecta coletivamente. Nas tradições de sabedoria, o fogo é o fundamento da inteligência divina, é um portal de conexão com ela.   No nível físico ele destrói, no nível psíquico ele purifica e no nível espiritual, ilumina.

Na tradição ancestral, os elementos terra, ar, água e fogo, não são só energias, mas sim corpos de entidades. Os cantos indígenas tem um significado vibracional. Reverenciar e agradecer é o que fazemos diante da divindade. Não pedimos nem negociamos nada. Os trabalhos e rituais ligados às forças da natureza são acompanhados pelo circulo dos ancestrais. Mas o rito vai além, ele compreende a possibilidade de sermos canais para a cura da Terra e da Humanidade.

As tradições xamânicas  trabalham com os elementos da natureza e com o equilíbrio das funções psíquicas. A Humanidade cortou seu vinculo com as culturas indígenas e isso provocou um atrofiamento da sua alma. Desenvolveu predominantemente a função pensamento.

O pensamento está ligado ao ar, a emoção à água, a sensação à Terra e a intuição ao fogo. O homem contemporâneo não sabe lidar com suas emoções, sensações e intuições. Existe hoje uma deficiência das inteligências , apenas a inteligência racional e’ valorizada . A Espiritualidade precisa ser desenvolvida e para isso temos que romper com algumas crenças.

Não nascemos novamente somente `a cada encarnação . Podemos nascer de novo a cada dia de nossas vidas porque e’ isso que ocorre corporalmente a cada uma das nossas células . Entre o passado e o futuro. Nascer de novo e’ um treinamento para estarmos presentes, lúcidos no aqui e agora da existencia.

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Workshop conduzido por Kaka’ Wera’

São Roque 23/24/25 janeiro 2015

Published in: on 26/01/2015 at 7:30 p01  Deixe um comentário