Visões de Mundo

Vamos filosofar sobre a qualidade do nosso olhar sobre a realidade, vamos ver o que a ciência, a tradição e a arte tem a dizer sobre de onde viemos, como pensamos o que pensamos, e como mudar o que pensamos.

Temos uma lente, uma forma para pensar a realidade, e quando dizemos  “ eu não sei ”,estamos aprendendo. Graças aos céus, aquilo que a gente quer nem sempre se realiza, porque nosso ponto de vista é muito limitado. Mas a vida é muito maior, ela não atende aos nossos desejos, mas sim aos nossos desígnios.

Somos frutos da cultura e a visão de mundo que temos não é a verdade absoluta. A atividade de se tornar um indivíduo é o desafio do desenvolvimento. Tornar-se quem se é, é o grande exercício de transformação que precisamos empreender ao longo da vida. A metáfora para isso é a borboleta : lagarta, crisálida, borboleta. A crisálida representa todos os momentos de crise. Segundo João da Cruz,  “a noite escura da alma”. E quanto mais enfeitada a cela, mais difícil abandonar. Tem coisas que não é de explicar, é de viver.

Todos nós temos paradigmas, que são fôrmas da cultura. Como se dá a nossa visão de mundo ? Todos enxergamos a realidade através de lentes desde pequenos e isso tem uma finalidade estruturante. E quem não tem, se torna disfuncional na cultura. Vemos o mundo através de lentes e crenças. A Biologia Cultural, tese de Maturana e Varela, explica como nosso corpo acaba tendo a expressão física do que a cultura nos informa, e nossa saúde depende desse padrão cultural e estilo de vida.

A Universidade de Londres fez uma pesquisa sobre esse trabalho, e no experimento, colocam bebês de tip top rosa e depois azul para ver a reação dos adultos na relação com eles e como isso influencia a criança.

O que se é, é diferente do que se aprendeu a ser. A educação tem duas finalidades : a primeira é transformar a nossa vida, e a segunda , precisa ser curativa, nos curar da nossa estória.

Freud e a descoberta do inconsciente foram fundamental para a cultura.   Estamos vivendo o tempo da física quântica, a velocidade aumentou, nos abrimos pra outras realidades e agora temos mudanças instantâneas. Antes estávamos vivendo o tempo da física mecânica.

Quero falar sobre o senso da falta e da escassez. Desde pequenos aprendemos que o que vem fácil, vai fácil. O não esforço nos dá uma culpa danada. Nesse paradigma também cabe a reclamação, que é gêmeo do esforço. Esforço é o peso emocional que colocamos na vida.

Só que oxigênio, luz solar e água caem do céu ! E isso cai fora do paradigma da escassez. Tem gente que não sabe viver sem dor nem doença. A vida não desiste de nós. A dor é um sinal de que precisa acontecer uma mudança. A dor pode ser inevitável, mas o sofrimento é opcional. Não é o esforço que nos dá força. E quando estamos preocupados com subsistência, a gente não tem existência.

Mudar a formulação de realidade e colocar foco no positivo aumenta a energia, o sistema imunológico, secreta ocitocinas, dopaminas, endorfinas. Tudo a ver com a forma de pensar que afeta nossa performance, nossa saúde.

Nós não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. É preciso ampliar nossa visão de mundo. O cérebro não aprende com afirmações, mas com perguntas, por ex : Como mudar isso ? Como aprender ? Etc..

Esso é um método. Quanto nos perguntamos sobre o que de fato queremos saber ? Precisamos duvidar de quem somos. As possibilidades são amplas. Um arquétipo antigo é sempre um sapato apertado.

Mudar de mundo é mudar de olhar. A gente sempre precisa atualizar a lente. Há que se ter muita delicadeza com as grades de cada um ; elas tiveram uma finalidade, mas precisamos descobrir que elas não são a nossa vida. E não é só tirar a grade, é compreender a vida, é evoluir para um campo maior.

E o propósito é encontrar a si mesmo e não mudar o outro. Todo o conhecimento é para aumentar a compaixão. Enquanto não nos transformamos, o mundo não se modifica. A nossa auto transformação é a maior construção para a humanidade.

Gestão de processos para revisão das nossas visões de mundo para saber qual a nossa verdadeira natureza. Somos essencialmente átomos. O átomo é a qualidade energética do Universo manifesto, e ele é abundante. Tudo o que queremos materializar na vida depende de átomos.

Um campo quântico é um campo atômico. A essência onde tudo se manifesta. Quando estamos bem, é como uma dança cósmica. Qualquer estresse ocasiona problema nesse campo. Os radicais livres envelhecem, adoecem e são produzidos por estresse. O excesso de elétrons no corpo produz os radicais livres que oxidam o campo atômico.

Se considerarmos o átomo um primeiro nível de organização, o segundo é o molecular, e é aí que aparece a vida. O átomo tem a ver com energia e a molécula com informação.

Um terceiro sistema que se organiza é a célula, que tem função de excreção e secreção. Assim, velhice é passar fome, é uma nutrição que não se faz.

O quarto processo é o orgânico, e esse é visível a olho nu. Ele só mostra o que está acontecendo nos processos anteriores. O campo atômico e o campo molecular são extremamente afetados pelo estado hormonal.

Estresse é uma forma de ver o mundo. É uma resistência que apresentamos quando a realidade não é como queremos, quando resistimos àquilo que é. As coisas são como são. O corpo de um bebê é alcalino, e de um velho é ácido. Gestão de estresse é fundamental.

Pensamentos danosos adoecem. Amadurecimento é diferente de envelhecimento. O primeiro é um processo biológico, e o segundo, um processo cultural.

Meditação constrói um campo quântico mais harmonioso. Sai do campo dos pensamentos que abalam o sistema e abre o campo para a vida. É preciso entrar em níveis mais profundos para fazer mudanças mais significativas.

Os nutrólogos dizem que tem cinco ( 5) elementos danosos para o organismo : heroína, cocaína, farinha branca, sal branco, açúcar.

Arte como elemento curativo é uma boa dose de medicação diária.

Estamos apenas no começo da Era Quântica. A nova ciência, a nova performance para tratar essa nova realidade transpessoal.

A grande descoberta do século 21 é o ser humano. Qual o desafio da humanidade nesta época ? Somos uma substância pensante e modelamos o que somos de acordo com o que pensamos. E somos altamente modeláveis.

Sobre a impecabilidade da palavra . Somos habitados por símbolos e precisamos ter responsabilidade sobre nosso próprio campo. Há que ver o melhor do mundo e semear em si mesmo o mais belo, o mais formoso, e cultivar a bem aventurança. Treinar e constituir outra forma de realidade. Limpar o campo quântico do mal dizer da vida. Nós nos tornamos melhor naquilo que treinamos mais.

Estamos todos a serviço da Grande Vida e nesse campo há trilha, não tem caminho pronto nem pavimentado.

Depressão é quando você recebe o plano A para a vida, e se ele não funciona, você não tem um plano B. Como lidamos com frustração ? Ou tentamos de novo a mesma coisa, ou tentamos de outro jeito, ou vamos fazer outra coisa. A curva invertida da ação é a depressão. E ela tem a ver com a percepção das escolhas do campo da liberdade. É preciso que reformulemos nossa visão de vida.

Não tem nada melhor do que sair da ilusão. As nossas ilusões não comportam a multiplicidade da realidade. Quando ampliamos a nossa visão estamos nos libertando. Desiludir-se é expandir-se.

O desafio de amar é o desafio de amar as pessoas como elas são. Então primeiro temos que duvidar. Somos nós os indivíduos que constroem as bases da nossa liberdade. Mas o processo de investigação é fundamental. Tem também a ver com a questão dos talentos que estão disponíveis e que não percebemos, portanto não usamos.

No paradigma da escassez estamos acostumados a economizar até nos dias especiais. Para ser especial tem que ser raro ? Quem falou isso ? Porque estamos seguindo isso que não tem a ver com o campo da felicidade ? Temos que ter a medida da felicidade. Tem gente que economiza de si até os sonhos. O pior dos desperdícios humanos é a economia de si mesmo.

As coisas na vida são impermanentes. A vida não é para dar certo, é para ser vivida. Ela não é uma utilidade, é uma experiência. Temos que nos orientar a partir de um campo amoroso. Será que há um cenário maior de vida, um sagrado que pode ser plenamente vivido ? Há algo que podemos fazer com que abramos as asas para encontrar todas os cenários e viver todas as aventuras para sermos plenos ?

Göethe chama de “campo decisório “o lugar aonde fazemos nossas escolhas. Quando a gente diz sim para a vida, uma enorme quantidade de energia se dispõe para nós. Vamos ficar vivificados com uma poderosa força de transformação para fazer parte da nossa realidade. Às vezes a ignorância nos protege, porque, se soubéssemos o que aconteceria, não teríamos dito sim. Mas trilhar uma trilha completamente nova significa estar aberto para os processos que vão acontecendo no meio do caminho.

É o caminho que nos prepara. Segundo Roberto Crema, nós somos as pessoas por quem estamos esperando. Não tem resposta pronta para aquilo que não está feito. É muito importante se dar conta do que não se sabe.

Segundo Sócrates, tudo o que o indivíduo sabe é uma aura luminosa de saber sobre ele, e quando vai aumentando essa aura, o indivíduo vai percebendo que sabia pouco. A sabedoria é o conhecimento da própria ignorância. “Tudo o que sei é que nada sei “.

Os 22 arcanos do Tarot são uma referência milenar. Temos ciclos de aprendizagem de hábitos que é de 21 dias. Mais de 60% de hábitos podem ser mudados nesse tempo. Isso tem a ver com circuitos cerebrais , caminho neuronal. Todos os padrões de comportamento que temos foram aprendidos. Assim que, se todos os dias trabalharmos um propósito durante 21 dias, isso permite que façamos mudanças extraordinárias.

Há uma coincidência dos setênios, que é a forma de compreender a vida em ciclos de 7 anos, com o campo biológico arquetípico do matemático Fibonacci. A cada período “x” de vida temos janelas conscienciais e podemos fazer limpezas para estarmos disponíveis.

Quando usamos nosso poder, nossos dons e talentos, isso é uma medicina para a humanidade. O que é que, como dom, trazemos para a humanidade ?

O Brasil tem um imenso patrimônio imaterial. Por ex. nas populações ribeirinhas do rio Amazonas, existem duas parteiras para dar à luz às crianças que nascem. A primeira parteira traz a criança ao mundo, e a segunda, é a parteira do dom da criança. Assim que, nós todos podemos fazer o parto dos nossos próprios dons.

Viver é um campo maior do que sobreviver.

Até agora vimos conceitualmente as questões de paradigma, de constituição de realidade e gestão do campo da vida. Precisamos agora revisar o campo das percepções. E nos perguntar : qual a minha vocação neste mundo, independente da minha profissão ?

A vocação é descobrir “quem eu sou“.Como vou descobrir o que é meu e o que não é ? A filosofia dá um encaminhamento a esta questão. Dedicar-se suficientemente ao autoconhecimento. Estar em estado de atenção é o primeiro requisito. Dar tempo para a atenção que já é por si um milagre. Há sempre um treino a ser feito. Demanda desligar-se do que não se é e preparar-se para o que se é.

O maior filósofo vivo hoje é Ken Wilber e precisamos estudá-lo para entender a sua filosofia. Ele tem uma prática diária de meditação por 3 horas, depois lê durante 4 horas sobre qualquer coisa que lhe interesse, e depois disso produz por uma hora. Dedicação é o tempo para preparar o melhor de si mesmo.

Sobre as vantagens de ir ao interno encontrar-se consigo mesmo. Aristóteles percebe que tudo é construção, e a base para construir a vida são os hábitos. Mudar hábitos é angular e isso muda a dimensão do que é visto. Ou somos iluminados, ou precisamos dos paradigmas para chegar à iluminação. Por ex., precisamos aprender limites no mundo da dimensão.

Jung fala dos 12 passos para educar a criança arquetípica. O primeiro é dominar a própria violência para aprender a conviver. Precisamos fazer o caminho de ajustar o Ser ao Estar. A Escola da Ponte, a Escola Waldorf, a Escola Construtivista são propostas para desenvolver isso na criança.

Do ponto de vista cerebral sabemos hoje que só acessamos 15% do cérebro, assim como os aplicativos disponíveis no celular que não usamos. Nossa capacidade cerebral é muito maior do que aquilo que estamos preparados. Há que se conviver com o que não se sabe, com o mistério. E a finalidade disto é nos abrirmos para o que é maior do que nós.

No processo filosófico só há um jeito de ensinar : é dar testemunho de um caminho. E quando a gente olha esse testemunho, a gente vê e decide do que se aproximar ou não .

É preciso enxergar o potencial no humano que está ao nosso redor e permitir que ele floresça. Precisamos ver a árvore implicada na semente. A gente precisa de fé para olhar para o indivíduo em confiança e ver que ali cabe todo o potencial da humanidade. Fé de que as pessoas são capazes de florescer.

Claude Lévi Strauss passa muito tempo com as tribos indígenas brasileiras e faz uma síntese da visão de mundo deles. De alguma forma nós herdamos a visão européia de mundo ao invés da visão indígena. Esta última vê que no outro há algo de divino ; para eles os espanhóis eram deuses, e para os espanhóis, os índios sequer eram humanos.

Kaka Werá diz que segundo os anciãos das tribos, agora estamos vivendo o tempo do sopro, e não mais da erva. Estamos todos ligados ao grande pulmão vital que é o oxigênio . A ciência está descobrindo o campo quântico. Aprender a respirar é uma grande tarefa.

Para Gurdiev e a tradição sufi, na respiração o indivíduo se ilumina. Quando perdemos a noção do todo somos presas fáceis da normose. E em Jean Yves Leloup, nos inteiramos das práticas dos terapeutas do deserto.

O mundo é um espelho de uma realidade íntima. Hermes Trismegisto nos fala que tudo está em relação com tudo. Somos sementes de mundo . Precisamos nos recolher na caverna da consciência e re orquestrar o campo para encontrar a resposta perfeita para uma vida bem vivida.

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Síntese da palestra de Dulce Magalhães

Seminário inserido na Pós Graduação de Psicologia Transpessoal

Setembro 2015

Published in: on 28/10/2015 at 7:30 p10  Deixe um comentário  

Os Desafios dos tempos atuais

O que está mudando hoje, tanto dentro quanto fora do ser humano ? Não sei as exigências dos tempos atuais, mas queria compartilhar alguns pontos que poderiam indicar essas mudanças.

Quero questionar uma posição que pode estar indicando a ligação com o que toda esta problemática está relacionada. O que está provocando a origem dos problemas atuais ?

O que acho que mais radicalmente mudou nesses 100/150 anos foi o espírito. E aqui, não estou falando do espírito dos tempos, nem o espírito dos elementos. Estou me referindo ao espírito em si.

O que é o espírito ? No que reconhecemos a existência e a atuação dele ? A expressão do espírito se manifesta no fato do ser humano poder mudar.   Ele nunca permanece o mesmo. Nos modificamos de acordo com a situação dada, na relação com alguém. E mesmo assim, somos os mesmos, porque sabemos muito bem que, até o encontro com determinada pessoa, nunca pensamos, sentimos ou agimos da mesma maneira. Somos algo que permanece sempre o mesmo, que é a ação passada do espírito, e ao mesmo tempo, nos tornamos outro, que é a ação presente do espírito.

O permanente e o “em mudança” é uma relação constante: eu sou o espírito que fui e eu serei  o espírito ativo no presente se modificando para o futuro. Eu sou e eu serei, são modalidades diferentes de espírito. Espírito a gente não vê, nunca ninguém viu o Eu, mas a gente percebe as manifestações do Eu. O que vemos na corporalidade do homem é o Eu do passado, o espírito do passado.

De maneira que de fato vemos o Eu. E hoje os seres humanos são cada vez mais diferentes uns dos outros, principalmente nas suas fisionomias.

Existe uma fotógrafa italiana que a partir de 2016 se tornará muito famosa, Georgia Fiorio, que já fez muitos projetos interessantes, por ex., um deles que durou 5 anos aonde se propôs a tornar o espírito visível. Ela estava convencida da existência do espírito, queria retratá-lo em mudança, e para isso visitou várias comunidades espirituais aonde as pessoas vivem para e a partir do espírito. Mergulhou na prática espiritual dessas pessoas, nas meditações, nos exercícios, e depois de meses, ela começou a fazer milhares de fotografias. Então avaliou as fotos com as pessoas da comunidade, os gestos, as posturas, as fisionomias, e disso surgiu um livro , “Rituais”, onde, de cada comunidade, ficaram resumidas profundas e comoventes imagens que podem afirmar, através dos movimentos do rito, a manifestação do espírito.

Um outro projeto que ela fez foi fotografar bustos de egípcios do passado em diferentes ângulos ; neste trabalho se percebe algo que, a cada momento, é o mesmo e, ao mesmo tempo, outro. Esta exposição será apresentada no museu do Louvre no ano que vêm.

A filosofia ocidental se inicia quando começamos a reconhecer o mesmo no outro, ou o outro no mesmo. Em Sócrates e nos diálogos de Platão, o “normal” começa a ser questionado.

Hoje não vivemos mais na percepção, mas na representação que compartilhamos, porém de fato, não vemos o que está aí – o mesmo e o diferente. Isso gera um problema em nós. Com esse desafio exercitamos realmente o olhar, a percepção começa a ser só o ponto de partida.

O que está mudando hoje em dia ?

Até o final do século XIX desde o início dos tempos, o movimento do espírito foi no caminho da diferenciação e o espírito se diferenciou, a atuação do espírito provocou que as coisas se separassem umas das outras.

Se hoje temos diferentes línguas, religiões, concepções de mundo, predileções, isso tudo é fruto da diferenciação do espírito. Para os cristãos os muçulmanos não são tão bons, para os muçulmanos, os judeus não são tão bons, para os judeus, os indianos não são tão bons, e assim por diante.

Isso porque “o meu grupo” acredita que possui a verdade, ou pelo menos, a melhor opção. Durante algumas décadas, a Antroposofia também achava isso e considerava que suas concepções eram as corretas. E isso é uma manifestação do espírito passado, mas o espírito hoje atua de forma diversa. Hoje o espírito integra.

O espírito antigo criava diferenças e o de hoje procura relações. Isso significa que, para o cristianismo, o islamismo se torna muito interessante, que para o islamismo, o judaísmo se torna muito interessante, que para o judaísmo, o induísmo se torna muito interessante. O ser humano começa a se abrir para o diferente, mas não para se tornar o diferente, e sim para se modificar.

Mantemos a individualização, ninguém será como o outro, mas começamos a nos interessar pela diversidade do outro. Não porque se trata de um valor moral e sim porque se trata do próprio espírito. Não temos que convencer o outro das nossas próprias convicções, mas cada um se integra mais ao espírito, se torna mais integrativo na vida.

Tentar convencer o outro da própria convicção não atua mais no espírito, isso é passado, não tem futuro, como o dogma. Poder viver de acordo com as próprias convicções sem tentar convencer os outros, e ser curioso de conhecer a concepção do outro, isso é o espírito do presente.

Imaginem isso no âmbito da experiência de Deus. Tentar ter a coragem de acreditar na sua própria experiência de Deus e não tentar comparar com a experiência de Deus dos outros. De viver a experiência própria de Deus com prazer e de não encontrar outros no qual o espírito está atuante. Ter um interesse livre no outro.

O espírito livre não se deixa irritar pelo espírito escravizado do passado . O espírito livre tem uma imensa alegria na diversidade do outro, no crescimento das possibilidades e principalmente na transformação de si mesmo e do outro.   “Que eu permaneça o mesmo mas me torne o outro”. O futuro é espiritualmente cosmopolita, integrativo e não exclusivo.

Individualidade surge a partir do momento da individuação do espírito. Esse individualismo afirma : eu não sou como você, e no fundo, sou melhor que você e vejo muitos defeitos em você e poucos em mim mesmo. A forma integrativa do espírito sente alegria na diferenciação dos indivíduos e se alegra na diversidade das diferenças.

E essa é a transformação do espírito da atualidade. Ao mesmo tempo que estamos diante de guerras de fundamentalismo religioso, estamos testemunhando a valorização da tolerância entre as pessoas, da auto determinação e da dignidade individual do Ser. Essas duas coisas estão acontecendo simultaneamente. O último levante do espírito do passado e uma formulação intelectual e ética do espírito integrativo.

O espírito integrativo já está presente na formulação intelectual das pessoas, mas ainda não saiu do intelecto para a vida. Nesta esfera ainda estamos na fase do espírito anterior.

Será que podemos nos decidir a distinguir as diferenças de espírito ?   Pessoalmente eu me decido pelo espírito integrativo ao invés do espírito separatista porque o futuro não virá sozinho e não virá naturalmente. Ele só virá conscientemente, ele precisa da nossa decisão porque nós queremos nos tornar cidadãos do futuro. Se não nos decidirmos por ele, o espírito conservador vai continuar e de forma destrutiva.

Até o século XIX o espírito separatista atuou em prol da individualização. A transição começa a partir do século XX com o totalitarismo, o fascismo, o comunismo, o capitalismo , que conduzem a genocídios e formas totalitárias até hoje. Em todos os lugares a vida é destruída a partir de uma concepção que quer se impor.

Vemos a partir do século XX o economismo determinando a estética do nosso mundo urbano. Vemos também a possibilidade da hospitalidade ser um valor maior do que o lucro e a solitude podendo ser considerada o maior valor para o ser humano, a qualidade mais bela. Rudolf Steiner desenha um mundo onde o maior valor é a liberdade.

O economismo e as conseqüências devastadoras do mercado livre , pode ser agora avaliado no que vemos acontecer no mundo com os refugiados.

A virtualização do mundo é um outro fator a que assistimos mais recentemente. Quanto tempo cada um hoje vive com seus aparatos no mundo virtual ? Não quero dizer que é ruim, mas eles prejudicam o espírito integrador e mantém no poder o espírito do passado. O século XX é de transição entre o espírito separatista e o espírito integrativo.

O totalitarismo, o economismo e a virtualização são expressão do espírito diferenciador retardatário. O espírito atrasado se torna mal. E o que significa mal ? Significa que o espírito começa a desrespeitar o ser humano e que sua humanidade é desrespeitada. Percebo que hoje, em todos os lugares do mundo, as almas das pessoas estão cada vez mais sensíveis ; muito inteligentes e exigentes, ou seja, precisando de muita coisa. Cada um é tão rico e tão sensível em sua alma.

Assistimos hoje a muitos conflitos entre grupos de pessoas, entre famílias, e cada um é muito sensível, frágil e inseguro – ou seja, tocável. E por ser tão tocável, fica-se com vontade de se distanciar do outro. E agora se trata de descobrir como se consegue estipular a relação entre proximidade e distanciamento. As duas dinâmicas acontecendo ao mesmo tempo.

Há a necessidade muito aguda de liberdade que cada um vivencia. Se agora passarmos a considerar a sensibilidade das almas como um pressuposto, vamos atuar de forma diferente. Pressupor a susceptibilidade nos leva a atuar de forma diferente. Se somos muito suscetíveis, tudo nos agride.

Precisamos observar quando somos sensíveis e quando somos suscetíveis. Na sensibilidade conseguimos absorver o mundo, e na suscetibilidade, tudo nos fere. O maior valor hoje é a transformação. Na medida em que nos transformamos, mesmo pouco, isso nos permite perceber o espírito.

Podemos procurar situações em que tenhamos prazer em mudar, por exemplo, nas comunidades de amigos, aonde aconteça experimentação psicológica e espiritual. A percepção do espírito integrativo começa na capacidade de transformação de nós mesmos. E o inverso nos aprisiona ao espírito conservador. A força de transformação é nosso bem maior.

Palestra proferida no Auditório da  Sociedade Antroposófica

Bodo Von Plato

15/09/2015

Published in: on 26/09/2015 at 7:30 p09  Deixe um comentário  

Dores e Alegrias

Quem olha para o seu destino com sentimentos despreconceituosos, como se tivesse querido as suas dores, experimenta algo muito particular quando observa seus prazeres e alegrias. Ele não se concilia com estes últimos, como com seus sofrimentos. Para nós é fácil achar consolo no sofrimento, e quem não acredita nisso tente se  aprofundar . Mas é dificil se conciliar com alegrias e prazeres. Se alguém quiser se interiorizar profundamente no estado de ânimo de ter querido seus sofrimentos, ele não poderá deixar de se sentir profundamente envergonhado se projetar isso para seus prazeres e alegrias.

Ele experimentará um correto sentimento de vergonha e esse sentimento de vergonha não poderá ser superado a não ser que se diga: não gerei meus prazeres e alegrias por meio do meu próprio Carma! Esta é a única cura, do contrário o sentimento de vergonha poderá ser tão intenso que nos destrua a alma. A única cura está em não se supor mais esperto, pelo fato de ser levado para as alegrias. Com este pensamento se percebe que assim é, pois com este pensamento o sentimento de vergonha desaparece.

Os prazeres e alegrias nos acontecem na vida como algo que nos é dado pela sábia direção dos mundos, sem a nossa participação. Algo que temos que receber como uma graça e algo do qual devemos reconhecer que está determinado para nos colocar dentro do cosmo todo. Os prazeres e alegrias devem agir de tal forma em nós nos momentos festivos da vida, nas horas solitárias, como uma graça. Uma graça das potestades, todas do Cosmo, que querem nos acolher em si.

Então, enquanto através das dores e sofrimentos chegamos a nós mesmos e nos tornamos mais perfeitos, através de nossos prazeres e alegrias desenvolvemos, mas só se os tomamos como graças, aquele sentimento que só pode ser caracterizado como um sentimento de um repousar inefável nos poderes divinos e forças do Cosmo. E a única atitude correta perante os prazeres e alegrias é a gratidão. Ninguém se relaciona corretamente com os prazeres e alegrias, sem as horas solitárias do auto conhecimento.

Se associarmos estes prazeres e alegrias ao nosso Carma, nos entregamos a um erro que enfraquece o espiritual em nós e nos paralisa. Cada pensamento de que os prazeres e alegrias são merecidos por nós, nos enfraquece e paralisa. Isso pode parecer duro, pois alguns gostariam, que da mesma forma que associam a sua dor com algo que foi desejado para si mesmo e como algo que lhes chegou através de sua própria individualidade, gostariam de se sentir senhores de suas alegrias e prazeres.

A observação comum da vida nos ensina que prazeres e alegrias tem algo de dissolvente. Nunca este elemento dissolvente do prazer e da alegria conseguiu ter sua melhor expressão do que no “Fausto” de Goethe, onde este elemento paralisante na vida humana se torna perceptível com as palavras: “Assim cambaleio eu dos apetites para os prazeres e nos prazeres anseio por apetites”.

Quem reflete um pouco sobre a influência do prazer, quando é tomado pessoalmente, perceberá que o prazer tem algo que nos leva a uma vida titubeante e dissolve a nossa individualidade. Mas isto não deve ser uma recomendação para nos submetermos a autoflagelação e para nos fixar acom tenazes ardentes. Não deve ser assim. Mas o fato de reconhecermos corretamente uma coisa, não significa que tenhamos que fugir dela. Nós temos que aceitá-la tranquilamente, assim como ela nos aparece, mas temos que desenvolver o ânimo de que experimentamos como uma graça e quanto mais for assim, tanto melhor seremos capazes de penetrar no divino.

De forma que estas palavras não são ditas para predicar o ascetismo, mas para despertar o ânimo correto perante o prazer e a alegria.Não deve ser assim. Mas o fato de reconhecermos corretamente uma coisa, não significa que tenhamos que fugir dela. Nós temos que aceitá-la tranquilamente, assim como ela nos aparece, mas temos que desenvolver o ânimo de que experimentamos como uma graça e quanto mais for assim tanto melhor seremos capazes de penetrar no divino. De forma que estas palavras não são ditas para predicar o ascetismo, mas para despertar o ânimo correto perante o prazer e a alegria.

Quem afirmar que o prazer e a alegria tem algo de paralisante, dissolvente, por isso ele se afasta do prazer e da alegria o ideal do falso ascetismo, da autoflagelação, se afasta da graça que lhe é presenteada pelos Deuses. E no fundo, as autoflagelações dos ascetas, dos monges e das freiras, são contínuas rebeliões contra os Deuses. O certo é que nós sintamos as dores como algo que nos provém do nosso carma e que sintamos as alegrias como uma graça como uma inclinação do Divino para nós. O prazer e a alegria devem ser encarados como um sinal de quanto Deus se aproximou de nós, e a dor e os sofrimentos devem ser encarados como um sinal do quão longe estamos daquilo que temos de atingir como seres humanos.

Esta visão dá o ânimo fundamental perante o Carma, e sem esse ânimo fundamental perante o Carma nós não podemos em verdade progredir na vida. Temos que sentir que por trás daquilo que o mundo nos trás como bom, como belo, se encontram os poderes dos quais a Bíblia escreveu: “…e eles viram que ele era belo e era bom, o mundo ”. Mas enquanto nós precisarmos sentir o sofrimento e a dor, temos que reconhecer no decorrer das encarnações o que o homem fez no mundo, o qual era bom no começo e que ele deve melhorar enquanto ele se educa para uma enérgica tolerância das suas dores.

Palestra proferida por Rudolf Steiner

08/02/1912

Published in: on 26/05/2015 at 7:30 p05  Deixe um comentário  

A Biografia Humana como Caminho Iniciático

“Se você quiser conhecer o mundo, conheça a si mesmo, e se quiser conhecer a si mesmo, conheça o mundo ”  Rudolf Steiner

Como este tema é muito grande e muito próximo do meu coração, hoje posso compartilhar alguns pensamentos do meu entendimento sobre a imagem do ser humano do ponto de vista da Antroposofia, e também, como um ser humano desta época.

A partir do gráfico da curva biográfica que mostra a vida terrena em períodos de sete (7) anos dos 0 aos 63 anos, a metade aos 31 ½  , gostaria de falar sobre o caminho de encarnação e excarnação do ser humano. Depois da morte temos a oportunidade de olhar para traz e avaliar como essa vida se passou, e até chegar esse momento, fazemos uma viajem muito longa, em diferentes níveis ascendentes pelas esferas planetárias.

Quero falar sobre uma grande visão cósmica que R.Steiner nos dá quando chegamos no ponto de virada , e sobre a avaliação que fazemos antes de voltarmos novamente à Terra através das esferas planetárias preparando a nossa próxima vida. Este ponto de virada se chama meia noite cósmica.

Neste trajeto, a nossa consciência vai se ampliando ,e  nosso espírito, que é um órgão muito grande de sentidos , nos possibilita perceber o Ser do Cristo ao nosso lado, e desse modo, avaliarmos como contribuímos com nossas vidas passadas para o desenvolvimento da Humanidade como um todo. Olhando através dos olhos do Cristo , podemos vislumbrar o futuro e o que precisaremos fazer, qual o tipo de vida teremos que viver para continuar a contribuir com a Humanidade.

Nosso próprio desenvolvimento pessoal está conectado com o desenvolvimento da Humanidade e é no ponto de virada , na meia noite cósmica, que definimos nossas intenções primordiais. A semente espiritualizada do nosso coração é aí formada e R. Steiner nos diz que o coração é o órgão com o qual podemos perceber o nosso Carma.

Podemos então observar dois aspectos : 1) quando venho com o meu Ser e faço a minha contribuição ao mundo ; 2) quando quero continuar o meu próprio desenvolvimento pessoal.

No ponto de virada podemos ver todas as pessoas com quem temos uma rede de desenvolvimento e que estão ligadas à nossa missão na Terra.    Quando nascemos, chegamos abertos para receber o que as pessoas nos dão e com curiosidade para o que vem ao nosso encontro.

Passamos por ciclos de 7 anos aonde o foco está, em cada período, em um membro específico do nosso Ser: dos 0 aos 7 no corpo físico, dos 7 aos 14 no corpo etérico, dos  14 aos 21 no corpo astral, e quando esses 3 corpos estão preparados, nosso Eu pode então nascer. Nos primeiros 21 anos absorvemos do mundo e somos impregnados com o que as pessoas nos dão e assim formamos o conteúdo da nossa alma. Todo esse caminho é no sentido de desenvolver o Eu como instrumento, aí esse Eu pode tomar a biografia como instrumento para o desenvolvimento .

O nascimento do Eu é o momento que damos um passo para fora da família e, ao mesmo tempo, um passo para dentro da própria vida e assumimos a responsabilidade por ela. A nossa biografia é a coisa mais preciosa que temos e somos exclusivamente responsáveis por ela.

O que fazemos com nossa biografia é uma experiência pessoal. Quando damos esse passo em direção à nossa própria vida temos 3 ciclos para desenvolver a nossa alma, e depois mais 3 ciclos para desenvolver o nosso espírito. A fase dos 21 aos 42 anos é para interação, e a fase dos 42 aos 63 anos, para devolver o que recebemos ao mundo, fazer a nossa contribuição ao desenvolvimento da Humanidade.

Essa é uma tarefa que podemos assumir e que não acontece por si , pois o Eu só se desenvolve através da nossa própria atividade e nada mais. Podemos olhar para a nossa vida passando por esses setênios como uma espiral, olhando de vários pontos diferentes, e o tema da nossa vida não precisa ser resolvido, mas ela precisa ser vivida através do nosso Eu. A Humanidade também tem esses estágios e ciclos, mas em uma amplitude muito maior de tempo.

Agora estamos na chamada época da Alma da Consciência, chegamos apenas no começo, mas temos que cumprir com a tarefa desta época. O que exatamente isto significa nesse momento ? Temos como potencial o ciclo entre 28 e 35 anos e R. Steiner disse que durante esses 7 anos temos a possibilidade de olhar para a nossa vida do lado de fora e essa é a maior emancipação que o ser humano pode fazer – olhar a própria vida como se ela fosse de uma outra pessoa no sentido de entrar em contato com o próprio Eu. Encontramo-la do lado de fora e do lado de dentro, e tudo o que vem ao nosso encontro tem a ver conosco ; as pessoas que encontramos no mundo espiritual, as encontramos agora novamente.

Todos os eventos que acontecem, revelam alguma coisa da pessoa que somos. Precisamos aprender a olhar para isto. Olhar para dentro, para o próprio pensar ,sentir e querer, e saber que somos muito mais que isto.   Quando damos um passo para fora,criamos a possibilidade de nos desidentificar para, em seguida, nos re identificar conosco mesmos, e isso só pode ser feito ativamente. Esta é a pré condição para o desenvolvimento da Alma da Consciência que acontece no ser humano na fase entre os 35 e 42 anos.

Depois de ter vivido um certo tempo, podemos nos fazer algumas perguntas , como por ex : É essa vida que quero viver ? Estou realizando o que vim aqui para fazer ? Isso nos obriga a definir nossos próprios valores e a possibilitar que nos tornemos uma autoridade interna, independente da externa. Traz responsabilidade para definir nossos próprios valores que são desenvolvidos por nós mesmos individualmente, o que define aquilo que sustentamos e para que queremos usar nossa vida, com o que queremos contribuir. Ninguém pode nos dar isso.

Quando olhamos para o nosso tempo atual enquanto Humanidade, chegamos a esse limiar e podemos nos perguntar : o que posso fazer ? Somos o centro da nossa vida e por outro lado temos a possibilidade de, com toda a tecnologia, ver bem longe no Cosmos e perceber como ele é grande e é nessa casa que moramos. Vivemos nesses dois pontos.         Nessa época da Alma da Consciência somos capazes de fazer viagens pelo Cosmos e olhar tudo do lado de fora.

Nesta nossa época nenhuma vida é fácil e para desenvolver a Alma da Consciência individualmente temos que enfrentar testes e desafios que encontramos na nossa própria vida. Como Humanidade estamos neste ponto de virada e nos perguntamos o que fazer desse mundo. O desenvolvimento apenas acontece quando encontramos as forças adversas, assim temos que conhecer o mal e como essas forças atuam.

O que  Ahriman traz para nós ? Ele é muito inteligente ,ele tem a ver com poder e isso tem a ver com a nossa época.        A tecnologia tem a ver com controle o tempo todo e com todo mundo – vide facebook, google, etc… Temos que nos perguntar o que está por traz de uma força que quer nos empurrar numa direção. Ahriman precisa do nosso livre arbítrio para operar, precisamos estar atentos à sua sedução e como cedemos a ele.

Um grande cientista da atualidade, Stephen Hawking, fala sobre inteligência artificial e que estamos numa corrida entre o avanço da tecnologia e a sabedoria para podermos usá-la, e que, no futuro talvez não mais existirá a pergunta “quem está controlando ?”. Então, como podemos desenvolver significados e caminhos para lidar com isso ? O que queremos fazer com a Terra ? Como queremos viver aqui ? Nós temos que decidir e não deixar outros decidirem por nós.

Todos estamos encontrando esta situação em nossas vidas pessoais, nem precisamos olhar muito longe, a própria vida está trazendo isto para nós. O poder das forças adversas se realizando no mundo externo e também na nossa alma é um campo de batalha. E é através das nossas próprias crises que temos que olhar interna e externamente para podermos aprender a conhecer este fenômeno e decidir o que fazer com isso.

Quando conseguimos olhar para a profunda conexão que temos com a evolução da Humanidade, é aí que podemos ver como fazer a nossa contribuição. Nossa vida pessoal é muito íntima, só pertence a nós mesmos, mas, ao mesmo tempo, estamos vivendo com a Humanidade.  Trabalhando nos desafios da nossa própria biografia podemos fazer a nossa contribuição pessoal, mas para que isso aconteça, é necessário que tudo passe pelo nosso próprio Eu.

Os desafios que vieram ao nosso encontro no passado fizeram de nós o que somos agora. Temos que aprender a olhar a própria vida de maneira objetiva. Assim poderemos olhar para os eventos externos, que estão do lado de fora, e ver a correspondência interna na nossa alma. Quando observamos os padrões e o fio vermelho da nossa vida , o sentido  resplandece, descobrimos  porque agimos de determinada forma e porque as coisas vem na nossa direção. E quando isto acontece, brilha uma confiança na existência do mundo espiritual e percebemos que existem forças criativas por traz de tudo.

Desta forma, nos damos conta do sentimento de estarmos totalmente sós e, ao mesmo tempo, nunca estarmos sós. O mundo espiritual está conosco o tempo todo, mas ele precisa ser conhecido por nós. Steiner fala de três qualidades a serem desenvolvidas nessa época :

  • Compreensão social, entendimento prático da vida. Não dá para ler isso nos livros, acontece quando aprendemos a nos ouvir uns aos outros e necessita de um profundo interesse de um ser humano para outro. Através disso podemos aprender uns com os outros.
  • Liberdade da vida religiosa. Isso significa uma profunda tolerância com o que acreditamos, aceitação de que crenças são pessoais e que cabe a cada um construir suas próprias crenças. Dar liberdade a cada um para ir em busca de sua própria verdade, deixar cada um livre para fazer essa escolha.
  • Precisamos adquirir um conhecimento vivo do mundo espiritual, aprendermos a nos relacionar com ele para que ele possa se relacionar conosco. Existem forças criativas que estão por traz da criação esperando por nós para podermos trabalhar juntos.

O começo da Alma da Consciência é o começo deste caminho. No passado haviam os Centros de Mistério que tinham ritos específicos de Iniciação e eram secretos. No nosso tempo todos os segredos estão revelados, acontecem nas crises das nossas vidas e depende de nós estarmos despertos ou adormecidos para a possibilidade de Iniciação que existe aí.

Os desafios nos ajudam a conhecer a vida e ver que ela é esse caminho de Iniciação que estamos percorrendo todos juntos.

Palestra proferida por Anita Charton

Auditório da Sociedade Antroposófica

18/05/2015

Published in: on 21/05/2015 at 7:30 p05  Deixe um comentário  

A praga da violência coletiva

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e a justificam.

Um aluno um dia me perguntou o que eu achava do homem: naturalmente bom mas pervertido pela sociedade, na linha do “bom selvagem” de Rousseau, ou esta desgraça mesmo que vemos por aí, em estado natural? Na realidade, não acho nem uma coisa nem outra. Acho que temos todos imensos potenciais para o bem e para o mal, para o divino e a barbárie. Cabe a nós, que trabalhamos com o estudo da sociedade e em particular das instituições, pensar o que faz a balança pender mais para um lado ou para outro. Pois deixando de lado alguns traumas e deformações individuais, domínio dos psiquiatras, aqui nos interessa a misteriosa bestialidade coletiva de grandes grupos sociais.

Muitos dizem que a solução está na educação e na cultura. Tenho minhas dúvidas, pois sou de família polonesa, e vi refletido nas angústias dos meus pais o que tinham vivido frente ao nazismo. Ninguém irá pensar que os alemães eram um povo de baixo nível educacional ou cultural. E no entanto, com que entusiasmo vestiram as botas e as camisas negras ou marrons, com que elevado sentimento de dever cumprido matavam pessoas por serem diferentes, por um critério real ou imaginário. Cerca de 50% dos médicos alemães aderiram ao partido nazista. Isto é que é realmente preocupante. Estupidez é uma doença que pega.

Poder dar vazão ao que há de mais podre dentro de nós, de mais escuro em termos de ódio contido, de mais baixo em termos humanos, em nome de elevadas aspirações éticas, parece ser muito satisfatório. Os nazistas agiam em nome da pureza da raça. E erguiam bem alto a bandeira do “Gott mit uns”, Deus está conosco. Tornar-se de certa maneira o braço executivo da cólera divina parece ser profundamente agradável. Há gente disposta a morrer por esta satisfação.

Quem não leu O Martelo da Feiticeira, manual de interrogatório dos inquisidores católicos perdeu uma importante fonte de conhecimento sobre os nossos lados escuros. O manual recomenda, por exemplo, que os religiosos encarregados de torturar as possíveis feiticeiras as torturassem nuas, pois se tornam mais frágeis, e de costas para os torturadores, pois a era tal a perversidade destas mulheres que de frente para os torturadores poderiam comovê-los com suas súplicas e expressões de desespero. Eram religiosos, e o faziam em nome de Cristo.

Somos hoje mais civilizados? Sinto-me profundamente abalado, chocado, pelo bárbaro assassinato dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, por profissionais da morte que matam em nome de Deus, e que claramente mostraram nos seus gritos que se sentiam como justiceiros que haviam cumprido o seu dever. São monstros? Se fossem, seria muito mais simples compreender e prevenir. Mas são seres humanos em torno dos quais se construiu uma muralha de valores que os protege de qualquer crítica. Se sentem pertencentes a uma comunidade que os apoia e recompensa, ou seja, praticam a barbárie em nome do bem. Podemos matar os terroristas, mas transformar a dinâmica que os forma é bem mais complexo.

Podemos tratar um psicopata, e proteger a sociedade dos riscos individuais. E uma sociedade doente? Quem não viu Os fantasmas de Abu-Ghraib, veja, é profundamente instrutivo. O documentário é montado a partir de selfies e de filmagens por celular de práticas de tortura no Iraque por jovens americanos, contra supostos inimigos. Tortura praticada no Iraque em nome da defesa dos direitos humanos, por um exército invasor, e por funcionários de empresas privadas de segurança terceirizadas para esta tarefa. Estes jovens são monstros? As imagens das torturas e dos risonhos rapazes circulam em todo o mundo islâmico. Com que impacto e efeito multiplicador?

Hoje temos tortura sistemática aplicada pelo sistema repressivo (Mossad, Shin Bet e outros) em Israel. Em Guantánamo quando os prisioneiros tentam morrer para escapar ao sofrimento se lhes introduz à força alimento pelo nariz ou pelo anus, tudo em nome do bem, como em nome de Deus os fanáticos do ISIS decapitam prisioneiros ou os do Boko Haram raptam crianças.

A maldade não está essencialmente nas pessoas, mas nos sistemas de organização social que a transformam em ódio coletivo e organizam a sua expressão em nome da justiça, de Deus, da pátria, da pureza racial ou o que seja.

Ladislau Dowbor

Fevereiro 2015

Published in: on 13/03/2015 at 7:30 p03  Deixe um comentário  

O Ser Humano e as Forças da Natureza

 

Tem-se dito que estamos em uma crise planetária gravíssima, de alto risco para a espécie humana. A desagregação dos ecossistemas promovida pelas limitações da atual consciência humana centrada na ganância, usurpação, exploração indiscriminada dos recursos, semi escravização humana e outros fatos deploráveis, tem agravado situações sociais insustentáveis e gerado um sistema quase ininterrupto de pequenas e grandes crises.

No âmbito pessoal, estamos percebendo o agravamento também de diversos distúrbios : stress excessivo, depressões, cânceres, distorções no campo afetivo individual e familiar, surgimento de inúmeras novas doenças, etc, e fica a pergunta “Onde é que vai dar isso ?”

No entanto, do ponto de vista espiritual, a crise é um modo de possibilitar a evolução / maturação da alma. É a oportunidade de dissolver males gerados por situações conflitantes, por isso, ela pode ser também reconhecida como uma iniciação espiritual.

Arapoti é um ritual para a expansão da alma e compreende 7 etapas :

  • Crise
  • Encruzilhada
  • Sacrifício
  • A noite escura da alma
  • Morte
  • Purificação
  • Renascimento

A Terra tem 4 reinos – mineral, vegetal, animal e humano – e desses, 3 já cumpriram seus ritos de renascimento, mas o reino humano ainda está perdido em uma bolha de ilusão, isso é uma crise da Humanidade.

Para a tradição ancestral indígena há o princípio dos 3 mundos : matéria, psique e espírito. A concepção tupi da alma é trina e se chama Avá.

Na tradição, o ar que respiramos é o que mais se aproxima de Avá. É universal, está em todos os lugares, é o Eu Superior, a Essência Divina. Ava’ é a verdadeira mantenedora da vida, desse Ser interno que nos habita e que estrutura toda a nossa forma. A base é vibracional luminosa e se ancora no coração. Essa essência em nós deveria ser aflorada para assumir o comando de nossas inteligências.

A grande crise da alma passa de um estado fragmentado da alma para a reintegração dos aspectos : Subconsciente = Bo ; Consciente = Nheng ; Supraconsciente = Avá

Os mestres desta tradição desenvolveram métodos para que pudéssemos atuar no mundo de forma consciente através dos ritos. O fluir consciente da alma é dificultado por inúmeras crenças. Existem algumas camadas que dificultam o acesso consciente, algumas são coletivas, da humanidade, outras familiar, e outras são individuais.

Para a auto expressão individual, o propósito maior se viabiliza na medida que expandimos o Ser interno. As camadas devem ser dissolvidas e transcendidas. Segundo os mestres, não conseguimos dissolver os aspectos coletivos sozinhos, mas sim, em círculos e entrando em contato com princípios superiores.

Existem três modos de dissolver um padrão ou crença negativos.

  • Pelo rito , cuja função é a criação de uma linguagem própria onde determinadas forças são acionadas e, em contato com o padrão, ele é dissolvido. O subconsciente entende essa linguagem
  • Pela anamnese com a consciência para minar o padrão. Essa forma exige alguns recursos para discernir o padrão e levá-lo a ser identificado como uma lição em vez de um obstáculo
  • Pela aceitação da fonte espiritual que cura. É o espírito que cura.

A Alma é a gota e o Espírito o oceano.

Há 5 mil anos atrás existia uma tradição ancestral para o desenvolvimento do ser humano que focava no aprimoramento dos aspectos internos do Ser.

A liberação de alguns padrões e crenças exige sacrifício. As culturas humanas, em uma época passada, entendiam que uma das maneiras de obter resultado, era fazer sacrifício humano. Isso continua impresso em nós.Isso é um sacrifício distorcido. Será que a grande vida exige matança ?  Neste sentido sacrifício fica ligado a sofrimento.

O sacro ofício é um ofício sagrado. O verdadeiro sacrifício traz para si a responsabilidade do esforço para abrir determinados canais. Esse é o sentido ancestral espiritual do sacrifício, desidentificar-se do padrão para ampliar a conexão.

A repetição e o ritmo com disciplina tem a tarefa de liberar conteúdos arraigados subconscientes. O sacro ofício tem a ver com atitude e não exige nada em troca. Mas convém haver um reconhecimento, uma gratidão. Gratidão é reconhecimento da graça. O sacro ofício é a interiorização e o alinhamento da nossa energia de vida.

O que é a morte para cada um de nós ? Que tipo de impacto a morte provoca ? Que tipo de sensação ? Para algumas culturas é tabu falar da morte. Algumas culturas vivem como se esse fenômeno não existisse, não sabem se relacionar com este momento.

Para a cultura Bororo, de mais de 15.000.00 anos atrás, a morte física – Aroê – era reverenciada e significava o apogeu de uma vida. Era um presente glorioso da Terra que merecia ser festejado. Para a cultura Kamayurá, a morte é um momento de preparação para o nascimento em outros mundos melhores. São culturas aonde a morte é uma passagem.

O rituais em torno de uma fogueira são algo que, do ponto de vista da cultura humana como um todo é familiar a todos. É uma mandala ancestral e nos conecta coletivamente. Nas tradições de sabedoria, o fogo é o fundamento da inteligência divina, é um portal de conexão com ela.   No nível físico ele destrói, no nível psíquico ele purifica e no nível espiritual, ilumina.

Na tradição ancestral, os elementos terra, ar, água e fogo, não são só energias, mas sim corpos de entidades. Os cantos indígenas tem um significado vibracional. Reverenciar e agradecer é o que fazemos diante da divindade. Não pedimos nem negociamos nada. Os trabalhos e rituais ligados às forças da natureza são acompanhados pelo circulo dos ancestrais. Mas o rito vai além, ele compreende a possibilidade de sermos canais para a cura da Terra e da Humanidade.

As tradições xamânicas  trabalham com os elementos da natureza e com o equilíbrio das funções psíquicas. A Humanidade cortou seu vinculo com as culturas indígenas e isso provocou um atrofiamento da sua alma. Desenvolveu predominantemente a função pensamento.

O pensamento está ligado ao ar, a emoção à água, a sensação à Terra e a intuição ao fogo. O homem contemporâneo não sabe lidar com suas emoções, sensações e intuições. Existe hoje uma deficiência das inteligências , apenas a inteligência racional e’ valorizada . A Espiritualidade precisa ser desenvolvida e para isso temos que romper com algumas crenças.

Não nascemos novamente somente `a cada encarnação . Podemos nascer de novo a cada dia de nossas vidas porque e’ isso que ocorre corporalmente a cada uma das nossas células . Entre o passado e o futuro. Nascer de novo e’ um treinamento para estarmos presentes, lúcidos no aqui e agora da existencia.

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Workshop conduzido por Kaka’ Wera’

São Roque 23/24/25 janeiro 2015

Published in: on 26/01/2015 at 7:30 p01  Deixe um comentário  

Traumas

 

Para falar sobre este tema, temos que partir de uma idéia central que é a sincronicidade. Carl Jung foi o primeiro a falar sobre sincronicidade que é uma coincidência significativa, um encontro entre o tempo e o espaço.

Sincronia dentro do âmbito espiritual, não é nada mais do que a presentificação do Carma. E para que a Psicologia Antroposófica possa se desenvolver, deve haver uma renovação na relação com a espiritualidade . Estar na vida significa fluidez e adaptação reflexiva, e não passiva.       Assim, temos que pensar na geração de uma nova cultura humana.

Sem a presença do Eu , que é nossa essência espiritual, não vamos poder reconhecer o encontro entre pessoas de uma Comunidade, e sem esse encontro, não se consegue gerar uma nova cultura.

Qual a verdadeira relação que estabelecemos com o que fazemos ? Temos que digerir muito bem todas as sensações do mundo, porque se não o fizermos, nos sentiremos compelidos a fazer coisas. É muito importante reconsiderar os encontros e poder tê-los no centro do coração, eles não são casuais, são coincidências que se dão com um sentido que está dirigido à uma parte adormecida do nosso Eu.

Na dimensão corporal do trauma, quando ele acontece, temos uma intervenção na força formativa do primeiro setênio. Na psicanálise isto se denomina Ego Cindido. Porém as forças do Eu, pela sua própria natureza, não podem ser danificadas, mas sim as forças do corpo na alma infantil.

O corpo físico se desenvolve dentro do sentido do tato, que permite a experiência de unidade. O corpo físico é o único à imagem e semelhança de Deus. Um corpo ferido não permite à pessoa ter experiência de unidade, de que sua vida tem um sentido.

Existem traumas que afetam antes do “rubicão”, por volta dos 9 anos, depois dele , e mais à frente com a encarnação do Eu, por volta dos 21 anos.

Vale a pena agora nos questionarmos que tipo de mundo estamos construindo, se um mundo de Eu’s, ou de pessoas existencialmente incapacitadas. Quais as condições atuais que permitem a futura encarnação do Eu no corpo das crianças ? Precisamos gerar condições adequadas para os três primeiros setênios de vida .

Quando acontecem traumas, precisamos gerar novamente as condições formativas dos setênios, recuperar e restabelecer as forças que foram destruídas, como por exemplo, a confiança. Temos que ser fenomenológicos e epistemológicos para saber quais são as forças constitutivas dos setênios e aprofundar nosso entendimento sobre elas para podermos restaurar no paciente as que ele perdeu.

O Caminho Interior de desenvolvimento do profissional é essencial . Qual seria a condição fundamental de um psicoterapeuta para tratar de um paciente severamente traumatizado ?

Isso tem a ver com a validação da dor do outro. Significa que o coração se abre para conter a dor que o outro tem sem julgamento. Validar algo é dar valor. Estar absolutamente presente para receber a dor do outro. E isso não é uma coisa simples. Mas o primeiro e o último passo para tratar o trauma, é poder escutar. Uma escuta com a mente, o coração e a vontade.  Como aprendemos a estar presentes e de coração aberto ?

Porque isso é o que realmente transforma a situação traumática.

E isso é o encontro de dois Eu’s .

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Palestra proferida pela psicoterapeuta Adriana Masieri no 1º Epapa

Encontro Pan Americano de Psicologia e Antroposofia – outubro 2014

Published in: on 31/10/2014 at 7:30 p10  Deixe um comentário  

Pontos de Virada na Biografia

 

Toda nossa vida está preenchida por pontos de virada. Se observarmos mais atentamente, todo dia temos dois pontos de virada : o adormecer e o acordar.

A Ciência Espiritual é uma fonte infindável aonde podemos observar isso.

A capacidade de conhecer o mundo sensorial com um pensamento claro a humanidade conquistou com muito esforço. Isso foi um ponto de virada na consciência humana que aconteceu há relativamente pouco tempo.

Quando acordamos a nível da consciência humana, perdemos o contato com o mundo espiritual. O mito de Adão e Eva descreve isso de forma muito bonita. Um ponto de virada.

Os maiores pontos de virada são o nascimento e a morte. O recém nascido precisa se adaptar ao mundo novo, e na morte, se vivencia a mudança radical de ter que deixar para traz o corpo físico – aí se tem o renascimento no mundo espiritual. Quando nascemos somos expirados do Cosmos, e quando morremos, somos inspirados por ele.

Quando começamos a desenvolver o nosso interior conscientemente é um momento importante, e a isso damos o nome de iniciação. Nesse caminho interior a tarefa é sempre reconhecer mais a verdade sobre o mundo, sobre Deus, sobre tudo. Esse é outro ponto de virada.

Precisamos do equilíbrio entre o amor e a liberdade para encontrarmos a verdade no sentido mais amplo.Quanto mais amor uma criança vivencia, mais saudável ela cresce.

Como podemos lidar com os conhecimentos que nos foram passados pela Antroposofia sem desistir da nossa inteligência ? Não estamos mais na época de acreditar, mas sim de entender.

Podemos olhar os mitos e contos de fada e aprender a ler os mesmos nas suas camadas mais profundas para descobrir os segredos por traz dessas imagens.

A luta para chegarmos à um entendimento nos faz pagar um preço bem alto. Quando o homem cai fora com o seu pensar do mundo espiritual, vem a demência ; quando cai fora com o seu sentir, vem a depressão ; quando o corpo cai fora dessa unidade, o câncer. Hoje as doenças mais comuns na nossa humanidade tem uma única fonte.

Quem fica com a verdade sem experienciá-la não a conhece. Aquilo que aprendemos com a cabeça precisamos vivenciar no coração, e com a vontade, na ação.

Rudolf Steiner nos presenteou com uma imagem – o pesquisador espiritual é como um sapateiro, que além de vender os sapatos, ele também só pode andar com eles. Precisamos de uma grande parte de coragem e desprendimento para passar por cima do obstáculo do limite dos nossos conhecimentos.

Usando essas ferramentas para conhecer os mundos superiores, podemos criar um ponto de virada.

O Carma tem 3 afinações : 1) nosso estado de ânimo ; 2) simpatia e antipatia ; 3) os acontecimentos. Nada vem de fora de nós, temos que assumir que tudo o que acontece vem de dentro de nós mesmos. Essa consciência é uma libertação mágica.

Os pontos de virada da nossa biografia são individuais : quando vamos para a escola, o primeiro grande amor, quando vamos para a faculdade, essa lista é enorme. Cada um vivencia o seu destino de maneira particular. Enquanto não nos defrontarmos com os padrões da nossa vida, eles ficam repetitivos.Temos que entrar em contato com o Eu superior e desenvolvê-lo. Tomar responsabilidade sobre as escolhas que fazemos no nosso destino.

Os pontos de virada trazem o despertar.

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Palestra proferida por Hermann Seiberth

Sociedade Antroposófica  27/08/20124

Published in: on 28/08/2014 at 7:30 p08  Deixe um comentário  

O papel do pensamento e do sentimento na Meditação

Na lenda do Graal existe um primeiro momento onde Parsifal se encontra com o rei ferido. Ele estava em busca do espírito e, com a educação mais nobre que possuía, encontra um ser humano ferido. Essa educação toda vale para o espírito através do mundo, mas perante o rei ferido, não vale mais nada. O rei Amfortas é a imagem do ser humano em si que se feriu. Qual seu sofrimento ? Parsifal não sabia e não perguntou.

Com o conhecimento da humanidade até aquele ponto, não havia como perguntar sobre a ferida da relação entre o corpo e o espírito, entre a corporalidade e a espiritualidade. Apenas a alma é capaz de curar esse ferimento, e essa alma só pode atuar em conjunto com outra alma. O Graal não era capaz de curar essa ferida espiritualmente incurável, mas, através da pergunta da alma que se comove, a cura se torna possível. Se torna possível mediante a compaixão e o encontro das almas , da conexão das almas através da pergunta.

Há mais ou menos 100 anos houve um acontecimento na Europa que teve um impacto importante para todo o século XX ,fato este sem o qual o século XXI não teria encontrado a si mesmo. A identidade do século XX se define neste momento, entre 1912 e 1915. Isso a que me refiro foi a publicação da obra mais importante de Franz Kafka “A Metamorfose”.

Ela retrata a estória de um ser humano que acorda pela manhã com a consciência de si mesmo, mas o seu corpo não é mais humano e sim o corpo de um inseto, uma espécie de besouro, um escaravelho. O ser humano que perde a sua aparência humana, não é mais considerado humano. Mas essa estória revela que não somos humanos pela nossa aparência, mas sim na medida em que somos reconhecidos como humanos por outros seres humanos. Ela revela como somos dependentes da percepção dos outros.

Antigamente dependíamos apenas de Deus e da natureza, mas a partir de Kafka nos é mostrado o raiar de uma nova era onde não dependemos só de Deus e da natureza, mas de outro ser humano.

Quanto mais as pessoas ficam inteligentes mais se criticam, e seria bem mais interessante se os homens deixassem valer a diversidade da diferença. A tolerância deveria ser uma atitude passageira e o que deveria se colocar no lugar dela é o reconhecimento – apenas ele torna o ser humano, humano. Os sentimentos que são evocados quando somos reconhecidos e compreendidos nos dá a medida de que seres humanos precisam de seres humanos.

Todos nós, de uma certa maneira, somos especialistas em sermos seres humanos, mas isso não basta, ainda que vemos como algumas pessoas se tornam os modelos de humanos para nós, como p.ex Nelson Mandela, Gandhi, Martin Luther King. São pessoas que conseguem viver suas vidas para além do limite do particular, e com isso ajudam outros a descobrir e reforçar o humano em nós. Será que podemos defini-los como especialistas enquanto seres humanos ? Acho que é mais o contrario disso, eles conseguiram enxergar não o específico, mas o que vive no ser humano como humano. E Meditação é esse humano se revelando em cada ser humano.

Antigamente a meditação era um caminho que possibilitava a conexão com uma realidade espiritual, mas agora, é um caminho para que o ser humano possa reconhecer o humano em outro ser humano para além de todas as ideologias e de tudo o que é religioso. O tornar-se humano no ser humano é o caminho da Meditação e em seu centro se encontra o tornar-se um ser humano que, por disposição, já se é.

O ser humano se encontra em um limiar existencial, mas no exato momento em que começa a se perguntar “quem sou eu enquanto ser humano ?”, começa um novo destino. Até então, valeu um destino que o conduziu, mas a partir de agora o que valerá é até onde pode carregar o seu próprio destino. A partir da pergunta “Quem sou eu ?”, se o ser humano não age, principia um processo de desumanização. Os genocídios por convicções religiosas demonstram isso. A humanidade conheceu excessos de desumanização no século XX, a estória do Kafka é o que ela vivenciou até então.

O que será que o ser humano precisa quando começa a carregar seu próprio destino ? O que ele precisa quando se faz a pergunta “ Homem, reconheça a si mesmo ?”. A partir do momento que não se é mais carregado pelo destino, e sim que o carrega, o homem percebe que não consegue fazer isso sozinho, toda a educação não o ajuda nisso, ele precisa de outros seres humanos que o queiram enxergar, que o reconheçam. E para que se torne uno o ato de ser reconhecido, para que um e outro se torne um, é necessário uma nova unidade criativa, a união do sacerdote e do ferreiro. E isso se torna o centro de experiência Crística.

No Evangelho de João cap. V isso é descrito quando o Cristo diz que seus discípulos não são mais seus serviçais, mas se tornaram seus amigos. Esse é o momento de nascimento de uma nova união de seres humanos.

Gostaria de abordar agora algumas qualidades fundamentais que são experiências que gostariam de se tornar valores, em outras palavras, trazer o esboço de um novo ensinamento das virtudes, qualidades do humano universal que só são possíveis de experienciar na relação com seres humanos. Isso não dá para ser deduzido de forma apenas filosófica, é preciso ter-se a experiência humana compartilhada na própria vida, e ela tem que ser recíproca.

São sete (7) experiências,qualidades que podem se tornar virtudes:

1)    Respeito perante a solidão

O homem moderno autoconsciente é solitário, ele tem esta espécie de saudade de se inteirar com a solidão, o Eu é solitário, a amizade não serve para superá-la, mas sim para se tornar guardiã da solidão do outro.

2)    O outro sempre permanecerá um enigma

Quanto mais eu compreendo e reconheço o outro, mais ele se torna enigmático, é a consciência de si mesmo a partir da alteridade, o si próprio se reconhece a si mesmo, mas o autoconsciente sempre vai ser permeado pelo estranho, não existe caminho de volta para o paraíso, o estranho é o que é verdadeiramente familiar.

3)    A evidência

Esta qualidade tem um papel importante na amizade, o amigo não precisa se explicar ao amigo, este se torna visível e evidente, o que se reconhece não precisa de explicação ; nesse ponto, a amizade vai além do mero reconhecimento, ela nos torna capazes de reconhecer mais o outro do que a nós mesmos. Essa evidencia é o testemunho do humano no outro e a partir daí começa o seguinte processo : o outro carrega comigo o meu destino e isso é o que transforma a minha vida.

4)    A capacidade de se deixar impressionar

Todas as qualidades anteriores são uma preparação para esta que é a mais difícil, pois ela é trazida de fora, ela pode acontecer ou não; o decisivo é a pessoa que fala algo que nos impressiona. Quando prestamos atenção àquilo que nos move, isso gera alguma impressão em nós, e pode nem sempre ser algo agradável. Esse quarto ponto é onde a simpatia e a antipatia se tornam mensageiros para alguma coisa que vai muito além.

5)    Amar as contradições

Essa é uma qualidade totalmente nova, seria muito idealista negar as contradições. Porque será que a cultura dos poetas e dos músicos se tornou atuante nos genocídios e destruições ? Porque compasso e Mozart não se excluem de maneira nenhuma. O supremo bem e o supremo mal pertencem um ao outro. Quem acha que só se dirige ao bem, se dirige à uma ilusão. Se aceitamos a contradição como fato dado, deixamos de aplicar uma ética normativa, e passamos a nos aproximar de uma postura amante e compreensiva dos erros dos outros.

Segundo R. Steiner “Quanto maior a faculdade de consciência no ser humano, maior a sua inclinação para o mal”. Quanto mais consciente de si mesmo, mais o homem tem que aprender a desenvolver o manejo das diferenças, e nisso somos dependentes dos outros seres humanos. Quanto mais consciência, mais contradição, é necessário termos amigos que compreendam isso.

6)    Assimetria nas relações

Toda amizade é assimétrica, não existe justiça nela, senão não seria amizade. Um dá algo para o outro, o outro dá outra coisa, isso é muito diverso ; um relacionamento real e verdadeiro entre individualidades é assimétrico.

7)    A verdade se transforma em veracidade

O antigo ensinamento das virtudes platônicas se transforma, em um ensino moderno, no suscitar do próprio Eu na face do amigo ; a qualidade subjacente é a liberdade que vive no amor ao agir permanente. Permitir viver no amor ao agir, e deixar na compreensão da vontade do outro.   Isso é o cerne de uma nova ética, essa ética meditativa que surge na face do outro, esse outro que, através da amizade, se torna para mim o mundo espiritual. Esse mundo espiritual não vive no além, em um lugar distante, mas no ser humano que eu reconheço.

Finalmente, na meditação não existe um ensino linear de causalidade, pois não é porque se medita isso ou aquilo que a coisa vai acontecer, mas a meditação é sua própria pré condição e conseqüência. O Eu humano é do mesmo jeito. As 7 qualidades são pré requisito e conseqüência, e assim, dessa maneira, abandonamos o pensamento causa / efeito.

Palestra proferida por Bodo von Plato no II Fórum de Meditação na Sociedade Antroposofica em 31/08/2013

 

Meditação na aquisição do Conhecimento

 

 Os objetos do cotidiano tem seu próprio mistério. Normalmente quando ouvimos escrituras sagradas , elas saem da boca dos sacerdotes. Mas na Ásia há uma lenda que conta que no começo da criação havia um ninho com dois ovos ; de  um deles saiu um xamã, e do outro saiu um ferreiro.

Como Caim e Abel, estes “dois ovos”, são aspectos que pertencem a nós mesmos, temos essas duas características dentro de nós, nossa herança vem tanto do céu quanto da terra. Os mistérios do céu estão em paralelo com os da terra, e todas as culturas têm essas estórias. Por exemplo, na mitologia grega um dos deuses do Olimpo foi rejeitado, desceu para a Terra e se dirigiu para a ilha vulcânica de Lemnos – ele era manco. Todos nós, de uma certa forma, vivenciamos essa queda e somos um pouco mancos. O então deus caído, Hefestus, tinha habilidade com as mãos para trabalhar com o fogo. Dessa forma, temos um deus feio e manco que depois se casa com Afrodite, a mais linda de todas as deusas, a deusa do amor e da beleza.

Na África, se alguém quer casar, vai ao xamã, mas se ele está fora da aldeia, vai-se para o ferreiro.

Temos assim duas tradições sagradas, a do sacerdote e a do ferreiro. E é essa a imagem quando pensamos no Cristo. Quem era seu pai ?     Um carpinteiro. Imaginem a sua infância fazendo objetos a partir da terra, como Hefestus.

Quando ouço as palavras da frase :  A redenção do ser humano é pelo sacrifício do Cristo, o novo Adão que redime o pecado de Adão e Eva – também lembro do assassinato de um irmão pelo outro, também acho que esse fraticídio é redimido.

A corrente do ferreiro e do sacerdote convergem no Cristo. Quando olhamos a tecnologia e os objetos cotidianos, deveríamos lembrar dessa herança. Por milhares de anos as estórias envolveram a técnica, portanto não há nada no mundo que não seja sagrado, mesmo esse microfone por onde falo.

Quando temos a imagem da tecnologia que se move do mal para o bem, e que também se move do que é secular para o sagrado, penso que a meditação é justamente a ferramenta que permite que nos tornemos mais despertos para o dia a dia.

Será que podemos nos tornar mais despertos ? Gostaria de tratar dessa questão não em termos de conhecimento, mas em relação à espiritualidade.  Como vivo a minha vida ? O que nos guia ?

Quando nos tornamos conscientes de todas as vozes que impulsionam nossa vida – os hormônios, os pais, a sociedade,etc.. –  ficamos um pouco mais livre delas. Despertos, podemos ir colocando essas vozes gradualmente mais distantes. E daí a pergunta : o que nos guiará se não houver nenhum impulso que vem de fora ou de dentro de nós ? A possibilidade de sermos livres existe quando conseguimos isso.

Estamos em um ponto critico no mundo. As fontes da vida moral, religiosa, estão diminuindo. A nova moralidade ainda é uma fonte fraca, e a meditação é uma importante atividade para encontrarmos novas fontes.

Rudolf Steiner disse que quando mergulharmos nas profundezas da meditação, poderemos encontrar tanto aquilo que leva ao florescimento interior do ser humano, quanto aquilo que leva à sua diminuição .

Como nos tornamos mais humanos ? Quais as práticas e os meios com que podemos contar para fortalecer essa nova dimensão ?

Gostaria de fazer uma distinção entre 3 sentimentos : pena, empatia e compaixão. A maioria de nós não gostaria de ser objeto de pena, porque isso é uma espécie de condescendência de cima para baixo. Empatia é um pouco melhor, a gente se sente no lugar do outro, mas isso também não é muito confortável. Pela empatia temos o fenômeno da exaustão por sentir o sentimento do outro. Os neurocientistas alemães vem estudando o fenômeno que expressa esse sofrimento. Já a compaixão é bem diferente, ela leva à ação, ou pelo menos ao impulso para diminuir o sofrimento porque existem outros circuitos no cérebro que são ativados, os sentimentos são positivos e dão a sensação da capacidade de ajudar.

Há que se distinguir entre o que é e o que não é compaixão. Ajudar os necessitados é uma capacidade tão bonita no ser humano. De onde ela vem ? Como se relaciona com o bem ? Tentar encontrar o que poderia ajudar o outro é genuinamente saudável, pois é necessário que o bem floresça não só na minha vida, mas na vida de todos. Isso significa mover-se na direção do sofrimento e não desviar dele.

São Francisco de Assis e Shantideva são muito parecidos nas suas orações, tanto no ocidente quanto na ásia , ambos falam de amor.

Quando R.Steiner fundou a primeira escola Waldorf, ele formulou a seguinte questão sobre educação : “ Como uma criança é educada para que se torne um ser humano verdadeiro , afim de que possa dar conta de toda a sua individualidade dentro de si, e ao mesmo tempo, expressar o seu inteiro ser na conduta ética e religiosa da vida ?

Não seria essa uma questão para a educação de qualquer criança em qualquer escola, e não só para a educação nas escolas Waldorf ?

Cada criança vem ao mundo com a inclinação para a generosidade, para a gentileza, e mesmo a ciência está começando a reconhecer que isso é um fato. Como é que nós adultos esquecemos isso ? Como podemos fortalecer essas capacidades ? Como fazemos isso em cada escola, em cada lugar do mundo ? O que vocês fariam ? Onde começariam ?

Steiner diz que quando ultrapassamos o limiar (da morte), a questão do bem e do mal desaparecem e o que se torna importante é aquilo que gera saúde. Na estória do Parsifal , temos a pergunta sanadora que quebra todas as convenções do bom comportamento.

No famoso discurso de Martin Luther King, também vemos este aspecto.

Necessitamos não apenas de nos comportarmos bem, mas de amarmos uns aos outros, temos que ir na direção do sofrimento mesmo quebrando as convenções e regras, temos que fazer isso a partir da compaixão e do amor pelos outros.

Quando estamos no ponto de completa liberdade, o que nos orienta em direção ao bem ? Talvez a atitude que Parsifal tomou no final do seu caminho – desobedecer as regras e obedecer à sua própria compaixão.

Como podemos ampliar esta atitude do Parsifal ? Em primeiro lugar a pessoas muito ligadas a nós, nossa família, e aos poucos estender isso um pouco além, na direção das pessoas não tão intimas, e depois a uma pessoa completamente estranha, talvez para alguém que cruzamos na rua e com quem poderíamos exercitar interiormente a pergunta : O que o faz sofrer, como posso ajudá-lo ?

O que aconteceria se mais pessoas se colocassem essas perguntas ?  O que aconteceria no mundo, uns com os outros, se todos carregássemos essas perguntas de amor e compaixão em nós ?

Essa atividade , que é meditativa, gera saúde e florescimento dentro de nós.

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Palestra proferida por Arthur Zajonc no II Fórum de Meditação realizado na Sociedade Antroposofica em 31 de agosto de 2013.

Published in: on 06/09/2013 at 7:30 p09  Deixe um comentário  
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