A Força da Conexão

                                                       Eros e Psiquè
“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
                                                                                                                                                      A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
      Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
                                                                                                                                        Mas cada um cumpre o Destino
                                                                                                                                                    Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
                                                                                                                                           E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”
                                                                            Fernando Pessoa

 

A inspirada poesia de Fernando Pessoa é uma bela imagem para o que se revelará, no final, como sendo o surpreendente encontro de alguém consigo mesmo.

Da mesma forma, a maravilhosa escultura de Canova, Eros e Psiquè, nos contempla com o cuidadoso empenho do amor em amparar a alma desvalida no chão.

Ambas são boas metáforas para a arte do encontro e do vínculo que se estabelece na relação entre o paciente e o psicoterapeuta na abordagem clínica antroposófica.

Inúmeros são os motivos que levam uma pessoa a procurar apoio emocional: uma doença, a perda de um ente querido, uma ruptura afetiva, uma crise existencial. Fato é que ela busca ajuda para algo que não está conseguindo fazer por si só:  a reconexão com a vida.

Inicialmente, o terapeuta utiliza dos seus recursos para formar o diagnóstico, obter uma visão abrangente da situação, e das ferramentas necessárias ao tratamento. Leva em consideração a constituição do paciente, a dinâmica dos corpos, a correlação entre as instâncias da alma, a etapa biográfica. Ao longo do processo ocorre, então, o momento onde ele precisa se abster de todo saber e abrir o espaço entre si e aquele que se encontra à sua frente. Silencia a sua mente.

Ele sabe que o vazio é necessário para que algo de natureza sutil e sanadora se manifeste. Ali, bem na região do meio, da troca, território do humano por excelência. Ele abre o seu coração e assim instaura a conexão amorosa que acolhe o outro e o leva de volta ao caminho de casa. Ao seu próprio Eu.

Para a Ciência Espiritual de R.Steiner, o amor é a causa última do desenvolvimento humano.

Ciente de que está a serviço de uma força maior e mais curativa, o profissional promove a alternância entre a fala e a escuta, para que o intermezzo carente de sentido, vá dando passagem ao que verdadeiramente preenche, ao que é pleno de significado, ao que é Presença.

“Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou no meio deles”.                                                                                                                               Matheuz  18:20

 

Eliane Utescher

Psicoterapia Antroposófica

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Published in: on 08/10/2019 at 7:30 p10  Deixe um comentário  

Vitalidade e Consciência

 

No tratamento clínico em Psicoterapia Antroposófica, um dos aspectos relevantes levados em consideração, é o estado físico/ orgânico do paciente que procura apoio psicológico.

Ciente das leis que regem a dinâmica dos corpos que constituem a natureza humana, a saber, corpo físico, corpo vital, corpo emocional e corpo essencial (Individualidade), temos que manter o foco na saúde como um todo, o que, algumas vezes, pode significar uma condução terapêutica inicial que privilegia a regeneração das forças vitais em detrimento da aquisição de mais consciência.

Isso ocorre basicamente em casos de doenças graves, como, por ex, o câncer, cuja convalescença durante a rádio e/ou quimioterapia, consomem enormemente a energia vital do paciente. Calor e acolhimento são fundamentais.

Durante um certo período, ele mal tem forças para dar conta do mal estar físico que esses procedimentos desencadeiam, que dirá elaborar questionamentos sobre os desequilíbrios emocionais subjacentes à sua doença.

É preciso que, o cuidado com os ritmos diários, com sua “nutrição” – sono, alimentação, lazer, etc – sejam bem preservados durante o tratamento psicológico.

Em outras palavras, a busca de equilíbrio, neste contexto, significa, num primeiro momento, optar por uma abordagem que estimule a relação do paciente com a vida através de dinâmicas interativas, abordagem corporal e atividades artísticas revitalizantes, para que, num segundo momento, quando ele esteja mais organicamente recuperado, possa, aos poucos, ir desvendando e compreendendo racionalmente as questões que exigem mais consciência ,que consomem mais energia, como por ex. ,os pensamentos, sentimentos e anseios conflitantes em sua alma.

 

Eliane Utescher

Psicóloga Clínica

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Trauma e Espiritualidade

 

Através da experiência de estar ao longo dos últimos 13 anos em praticamente todas as catástrofes que aconteceram no mundo, posso concluir que o trauma é sim uma ferida, uma abertura onde o organismo se abre. Nessa ferida podem entrar novas dimensões da vida, e assim, estas novas percepções que o indivíduo tem, podem ter características de céu ou de inferno.

Quando a pele se rompe no organismo humano, alguma coisa sai para fora, que pode ser o sangue; alguma coisa pode entrar, como os germes, por ex, que trazem uma infecção. Em geral, uma ferida no corpo se cura por si só. Assim também acontece com uma ferida anímica. Uma ferida na alma também se cura pelas forças internas que possuímos, pelas resiliências que temos. Mas também podem entrar “bactérias” que acontecem de ser um risco de vida, feridas que infeccionam animicamente.

Pedagogia de Emergência é uma providência que busca cuidar do trauma quando ele acontece. O trauma pode ser como um fechamento, um endurecimento, um congelamento consequente do choque. O estado de sono, a alimentação, a respiração, tudo muda depois disso, o choque causa um distúrbio rítmico muito forte na pessoa.

No choque traumático a pessoa fica presa no corpo, é como uma câimbra, e enquanto ela permanecer nesse endurecimento, a ferida não se cura. A Pedagogia de Emergência busca fazer a harmonização dos ritmos naturais no campo das forças vitais, no campo etérico.

Com relação à esfera das emoções, no corpo astral, o caminho é semelhante. Trauma nesse âmbito, é um distúrbio das relações. Cada sentimento que a gente tem sai da respiração, que é diferente quando se está alegre ou triste. Na inspiração acordamos, nos voltamos para nós mesmos, e na expiração como que adormecemos, e estamos mais para fora, no outro. Nesse ritmo está a nossa capacidade de nos comunicar, dialogar, nossa capacidade social.

No trauma ocorre uma profunda inspiração e não se consegue mais expirar, a pessoa fica presa dentro de si mesma em tensão. Esse é o motivo do isolamento das pessoas depois de um trauma, elas só conseguem vivenciar a si próprias e se tornam egoístas, a empatia se apaga.

Distúrbio anímico também se dissolve com a Pedagogia de Emergência. A nível da essência espiritual humana, do Eu, o trauma é uma experiência de morte, como se a pessoa fosse arrancada dela mesma; ela tem a sensação de estar fora do corpo, vendo-se do lado de fora, e não sente mais as partes do próprio corpo. Como harmonizar o corpo e os sentimentos?

O trauma se desenvolve em 4 fases, assim como as leis:

  • Fase aguda, onde aparecem muitos sintomas, como por ex., pulsação rápida, respiração curta, tremedeira, suor, porém eles desaparecem rapidamente
  • Reações pós-traumáticas, onde podem aparecer centenas de sintomas diferentes, como problemas de concentração, problemas de memória, situações de flash back anormais de lembranças, distúrbios do sono, da alimentação, da respiração, raiva, depressão, etc…Esses sintomas podem demorar alguns meses, porém se permanecerem é mais problemático, a ferida se transforma em doença.
  • Transtornos pós-traumáticos, que são os sintomas da segunda fase que se instalaram e viraram doença, como por ex., hiperatividade, depressão, ansiedade, que podem durar anos.
  • Mudanças permanentes da personalidade, que é a cronificação da fase anterior.

O trauma vai corroendo a nossa biografia. As pessoas podem machucar os outros, a si mesmas, ou se tornarem suicidas. As duas fases iniciais atacam principalmente o corpo físico e o corpo vital (etérico), na terceira fase os sintomas se instalam no corpo emocional (astral), e na quarta fase a identidade da pessoa fica completamente comprometida, ela tem falta de identidade.

Os quatro corpos constituintes do ser humano se comportam como a construção de uma casa por onde passou um terremoto. Algumas partes ficam com rachaduras de forma que ninguém pode viver aí, ou a casa inteira desmorona. O trauma é um terremoto na alma das pessoas. Porém, também é fato que , quando os terremotos acontecem, algumas percepções, que não existiam anteriormente, entram em nós.

O trauma é uma vivência de limite, de limiar entre a vida e a morte, onde as experiências de morte estão muito próximas. Para alguém chegar na morte, existe o caminho natural, existe o caminho iniciático, cujo objetivo é a ampliação de consciência, e existe um terceiro caminho através do trauma. Esses 3 caminhos são muito diferentes entre si. O caminho da iniciação é uma preparação para o caminho natural, mas o trauma é um caminho que não foi tomado em liberdade, onde o indivíduo foi jogado nele, ou onde ele ultrapassa o limiar sem estar pronto.

No limiar da morte os corpos suprasensíveis começam a se desprender do corpo físico. Quando o corpo etérico se desprende, aparece o panorama da nossa vida, os sentidos se desprendem do corpo físico, a orientação do tempo se perde, assim como todos os ritmos da Terra. Na sequência, quando a orientação à minha própria pessoa também se perde, essa é do âmbito do corpo astral, e por fim, ocorre a dissociação aonde se sai de si mesmo.

Todas as pessoas que tem experiência de quase morte, fazem o mesmo relato. Todas essas coisas transcorrem no trauma. Mas acontecem por partes, por ex., o corpo etérico se retira de um órgão, como do pulmão ou do intestino. Dessa forma, no trauma, quando as forças etéricas são arrancadas de um órgão, elas impregnam a alma, e assim, a função de morte do intestino vai para o anímico.

Já o corpo astral arrancado do corpo físico no trauma, leva a que, pensar/sentir/querer, que estavam juntos como uma água em um jarro e tinham uma forma, se desmanche quando quebra o jarro e as qualidades anímicas se espalham gerando doenças psico patológicas.

Todo caminho iniciático, todas as escolas de mistério, conduzem até este ponto, quando as 3 partes da alma se separam; o Eu desenvolvido e forte sustenta as coisas, são vivências de um caminho interior.

O trauma é o encontro não preparado para se chegar ao limiar. Ele pode destruir uma pessoa. No mínimo, ele fere muito, mas também tem muitas pessoas que conseguem trabalhar e integrar isso na sua biografia, e elas podem aceitar o seu destino. As pessoas que conseguem trabalhar o trauma são amadurecidas, elas sabem distinguir as prioridades, a espiritualidade tem um papel importante.

Hoje a ciência já fala de um crescimento da síndrome pós-traumática. Como acontece o crescimento pós-traumático?

A raiva e o ressentimento mantem o indivíduo preso no trauma. É através do perdão que ele pode ser libertado, mas esse processo pode demorar muito. A raiva é o primeiro passo para a transformação de um trauma. A raiva, o desespero está dentro do ego ; depois de um tempo esse ego pode deixar de ter necessidade de vingança, e aí se cria uma abertura por onde entra alguma coisa que preenche esse espaço anímico. Isto que flui para dentro é o Eu Superior. Isso é uma dádiva, quando o eu inferior se “sacrifica”, por assim dizer, e dá espaço para o Eu Superior.

O trauma cria uma relação de vítima e algoz que, na próxima encarnação vai exigir uma remissão. O trauma tem um aspecto de morte e ressurreição.

Finalmente, um terceiro momento nesse desenvolvimento, é quando a própria substância crística do Eu Superior flui para dentro deste espaço. É a partir desse ponto que o perdão se torna possível, quando a gratidão e a graça se manifestam.

 

 

Palestra proferida na sede da Sociedade Antroposófica / SP

Bernd Ruf  /  Pedagogia de Emergência

25/08/2019

Psicologia e Psicoterapia Antroposófica

“Os anseios por uma Psicologia baseada em uma cosmovisão espiritual contemporânea existem hoje em inúmeras almas.
 Acredito reconhecer como elas estão sedentas por um aprofundamento da Psicologia, do grande enigma existencial da vida em relação à alma.
Como efetivamente o que é buscado com uma cosmovisão moderna, constitui hoje o impulso de inúmeras pessoas, de todos os que a consideram seriamente como algo que devemos encontrar sob forma de forças ascendentes, diante de tantas forças de decadência presentes na atualidade”                                                                                                                                                                                    Rudolf Steiner

 

A Psicologia Antroposófica nasceu de um anseio dos profissionais da área por uma imagem mais humanista, integral e transcendente do ser humano.

Inspirada pelo legado de Rudolf Steiner e seu empenho em reunificar a Ciência, a Arte e a Espiritualidade, ela está presente há mais de 80 anos na Europa e há 40 anos no Brasil.

O foco dessa abordagem, tanto na área clinica, quanto educacional e organizacional, é, para além das técnicas, um caminho evolutivo de desenvolvimento e transformação que leva em consideração a vida que se processa no equilíbrio entre o corpo físico, o âmbito emocional e o cerne espiritual da natureza humana.

A Psicoterapia Antroposófica, propriamente dita, tem no encontro terapeuta/paciente, o fundamento de sua prática. Possui como respaldo um arcabouço antroposófico com teorias da personalidade, teorias de desenvolvimento, assim como metodologias de observação.  As técnicas utilizadas, além de contar com o acervo das diversas linhas psicológicas, contam com recursos específicos e são conduzidas por psicoterapeutas comprometidos com a busca do encontro do paciente com seu próprio Ser essencial, o verdadeiro sanador da alma.

Dessa forma, cabe ao terapeuta atento e sensível às necessidades do paciente, lançar mão do instrumental mais adequado ao tratamento, que pode incluir a linguagem verbal através de perguntas e conversas significativas, abordagem corporal, grafismos, atividades artísticas, como desenhos, pinturas e modelagem, mitologia, dinâmicas interativas e expressivas, e exercícios de imaginação ativa. Ele tem consciência que através da conexão compassiva com seu paciente, pode reorientá-lo tanto na sua jornada temporal quanto na atemporal, e assim restabelecer sua dignidade humana na vida atual, e no devir da sua Individualidade perene.

O grande diferencial do tratamento psicológico, seja com crianças, jovens ou adultos, é a abrangente e profunda visão antroposófica do Ser Humano que norteia a atuação do profissional empenhado nos processos de cura.

Esta concepção de Homem e de mundo, restaura os valores mais edificantes, a saúde emocional, o sentido e o propósito da vida.

 

Eliane Utescher

Psicóloga / Psicoterapeuta

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Época de João Renascer

A festa de São João fecha o primeiro semestre do ano, e é a época em que, naturalmente, revisamos as metas projetadas na virada do ano anterior e fazemos um balanço do que conseguimos realizar.

São João é o marco do que está por vir. Ao revermos nossos projetos externos e internos, ressoa fortemente na alma a voz da consciência. Tornamo-nos sensíveis aos nossos padrões de comportamentos repetitivos, aos erros reincidentes que funcionam como um freio na atuação individual que expressa mais limpidamente o nosso próprio Ser.

“Mudem seus corações e suas metas e preparem-se para a nova era”, clamava João às margens do rio Jordão. Em grego, Joanes, era um título atribuído ao ser humano que conseguia expressar seu Ser espiritual no mundo. Em suas pregações, João apelava diretamente ao senso individual do que é certo e errado presente em cada pessoa, independentemente de nacionalidade ou religião.

Muitos de nós, a esta altura do ano, sentem-se pequenos diante do que está por vir, com medo da própria sorte. Sertanejos olhando cheios de esperança o céu estrelado de junho. Elevar os olhos ao céu é um ato que, em si, é uma oração. O coração também se eleva, e na imensidão do azul que nos envolve, sentimos a presença de algo maior que nos acolhe, e nos enche de esperanças.

“Homem, torne-se o que você é”. Após ser batizado por João, o indivíduo enfrenta seu destino pessoal, como parte do destino da Humanidade. O que acontece além das fronteiras do meu cotidiano, também é minha responsabilidade, concluía, e assim, sentia-se membro de uma ordem universal.

O chamado individual nesta época de João é forte. Em relação aos compromissos, que tudo vai depender do que seremos capazes. Renascer nas pequenas ações ordinárias do dia a dia, eis a Iniciação moderna. Tão contemporânea, que na luta diária não nos damos conta do esforço que fazemos para manter a presença de espírito, e para não desviar nossa atenção procurando por grandes promessas de transformação.

Respirando fundo podemos reunir na alma forças novas. De um lado, o estresse é uma maneira de ser e lidar com as coisas. Reunimos coragem e pulamos a fogueira de São João. Do outro lado, com a força individual intensificada, renovamos a disposição para o que, ainda antes do final do ano, queremos alcançar.

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Texto de Edna Andrade, extraído da revista Nós 2009, e publicado no Boletim da Sociedade Antroposófica do Brasil

Published in: on 25/06/2018 at 7:30 p06  Deixe um comentário  

Os 3 aspectos do Ser do Cristo

O Mestre que ensina / O Médico que cura / o Consolador do Ser

Como me aproximar do espiritual? Como entrar em contato com as forças do Cristo? A presença dele na Terra impregnou o mundo. Historicamente o que temos como ponto de partida são os Evangelhos. Cristo, ele mesmo, não deixou nada escrito. Na nossa época atual, o desafio, se quisermos estabelecer uma relação com Ele,é procurar uma outra forma de conexão, porque a antiga, não se sustenta mais. Os Evangelhos podem apenas nos auxiliar de forma mais imaginativa, pois eles mesmos são contraditórios.

Segundo Rudolf Steiner, devemos ler os Evangelhos de forma inspirada. Cada um dos evangelistas quis abordar a biografia do Cristo a partir de um aspecto particular. Tem dois deles que nem foram testemunhas oculares, Lucas e Paulo. A alma humana naquele tempo era muito diferente. Ao longo do primeiro século, não havia nada escrito, a força do Cristianismo se dava através da transmissão oral. O Cristianismo não surgiu como uma doutrina. Atualmente precisamos de um grande esforço para entrar nas imagens dos Evangelhos.

R.Steiner nos dá algumas informações que nos ajudam. Ele escreveu 4 evangelhos para abordar o fenômeno de formas diferentes, cada um sob um ponto de vista, a partir de um lugar em especial. No século II/III havia muitos textos que não tinham uma unidade. O Evangelho de João é o documento por assim dizer mais elevado, grandioso, um olhar de águia para compreender o Ser do Cristo. Para Lucas, é a intensidade do ser amoroso e sacrificial do Cristo o que mais se destaca , os elementos da cura e o elemento feminino. O Evangelho de Marcos é o mais compacto e condensado, ele vai direto ao ponto, nele aparece a dimensão cósmica do Cristo, ele começa com o batismo no rio Jordão. O Evangelho de Mateus é a soma, a mistura de todos os outros, ele faz a ponte, a transição entre o antigo e o novo testamento, cita mais os profetas.

Como imagem, Mateus é o anjo, João a águia, Lucas o touro, e Marcos o leão. Podemos olhar o Evangelho através das parábolas e do processo imaginativo. Para nossa época, é fundamental que nós nos deixemos chamar pelo Cristo. Naquele tempo, Ele chamou os discípulos. Ir de encontro a um chamado, tornar-se discípulo é uma questão do Eu individual do ser humano. Cada vez mais o aceite vai depender da liberdade e da autonomia do indivíduo. É algo que só se desvela na medida em que faço um movimento nessa direção. Ir ativamente ao encontro do mistério do Cristo.

Cristo ensinava, curava e consolava o povo. O sermão da montanha é o supra sumo daquilo que Ele ensinou, a montanha é um símbolo de elevação interior, essa imagem diz muito para nós, Cristo se eleva para falar às multidões. Ele ensina porque alguém está aberto para o que Ele tem a ensinar. No sermão, depois Ele se senta e isso já nos mostra um gesto, o de estar sentado, tranqüilo, ter esse lugar para ensinar. Podemos agora então fazer o gesto de nos elevar para onde Ele está.

É importante que a mensagem do cristianismo seja ouvida pelos seus discípulos, “os discípulos o rodeavam, e então Ele começou a falar”. Ele coloca 12 discípulos à sua volta, é importante que Ele seja rodeado por diferentes maneiras de ouvir. No Evangelho de Lucas o ensinamento e a cura estão presentes. Em Lucas, Cristo fala com a multidão no terreno plano, na planície, e não do alto da montanha. Ele está cercado pelos seus discípulos. “Nem a todos é concedido entender”.

Se o ser humano quer, na modernidade, chegar a Cristo, precisa criar espaço para o logos, para a palavra, ter essa disponibilidade interior. Criar espaço não é muito simples, e em se criando espaço, alguma coisa quer sempre preencher esse lugar. Devemos criar e preencher esse espaço com aquilo para o que ele é criado, estarmos atentos para a preservação do espaço criado para que aí flua e aconteça o que queremos que aconteça. O Evangelho de João tem quatro capítulos inteiros onde Cristo fez um grande discurso em uma casa, num ambiente fechado, isolado e intimo. Ele está com seus discípulos e não mais falando com o povo, mas sim na intimidade da alma humana “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

Rudolf Steiner fala que esses capítulos deveriam ser lidos como sendo o discurso do ressuscitado aos discípulos. Viemos ao mundo para manifestar a força crística em nós, mas se não a percebermos, como a vamos manifestar?

Pastor Renato Gomes
Comunidade de Cristãos / Estância Demétria
29/03/2018

Published in: on 10/04/2018 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

Arquétipo da Síntese : a reconciliação entre o masculino e o feminino

 

A união com alguém é da ordem da graça.

Na teologia judaico-cristã, um momento de confusão entre o eu e o Self é o que chamamos de Paraíso. Na queda, perdemos a inocência infantil para viver no exílio, mas o objetivo é a união, a redenção, o reencontro com a unidade na diferença.

O caminho da síntese supõe a diferença e a diferenciação. Precisamos fazer dos momentos de conflito, uma ocasião de consciência que vai nos conduzir a uma unidade onde cada um pode ser capaz de amar o outro em todos os níveis e respeitar as diferenças.

O homem é uma síntese dos 4 elementos da criação : terra, fogo, ar e água. Nós encontramos esse tema nos pré-socráticos que insistem na integração. Na idade média vemos na entrada das catedrais as imagens da águia, do leão, do touro e do homem. E é preciso perceber que todos eles tem asas, cada um está nesse caminho de elevação, a síntese e a integração dos 4 elementos no centro, é o Cristo. Esses quatro viventes que simbolizam as 4 funções do homem não vivem sempre em harmonia. Isso é a causa da guerra e da fome. No apocalipse é interessante ver que, como esses 4 viventes não estão integrados no coração do cordeiro, é o dragão que tem o poder.

Esse trabalho de integração vai inspirar Carl Jung a falar das 4 funções : sentimento, razão, intuição, sensação, e a integração dos 4, o Self. Essa visão se inspirou nos portais das igrejas. Cada uma dessas funções pode ser desenvolvida, cortar ou sobrepor as demais. Funções dominantes e funções esquecidas, sendo que estas últimas estão na origem da sombra em nós. Temos que integrar essas 4 funções no encontro com o outro, no encontro de dois Selfs. Isso pode se tornar o encontro de nossas sombras.

Em nós há sempre luz e sombra, trata-se de reconhecer isso em sua inteireza. Para o oriental, não há luz sem sombra, dia sem noite.

Outro símbolo da síntese está na tradição chinesa. A palavra Tao significa caminho, via da cabeça aos pés. Para Tereza D’Ávila, a cabeça deveria estar no céu e as raízes, profundas na Terra. No evangelho de Tomé, é preciso que o alto e o baixo se toquem. É a integração que vai nos permitir tocar a Terra e estar aberto ao Céu. No símbolo do Tao, o negro e o branco não estão misturados , no interior do branco há o preto e vice versa. Não misturar e não separar para surgir o terceiro que é o círculo que contém os dois. Há o terceiro incluso, o que faz a ligação entre os dois.  Para ser um é preciso ser três. É importante o espaço entre os dois, o espaço que une e se distingue, o terceiro que há entre o amante e o amado. Não há aliança sem os três.

Os antigos chineses falam de harmonia e da palavra “cor”. A palavra cor/cordis/coração, simboliza o movimento do centro em direção ao centro do outro. O símbolo que representa o homem é essa harmonização entre o céu e a terra, o terceiro que faz a ligação.

O símbolo da escola de Grof Durkheim também tem a ver com esse significado, um enraizamento e a abertura.

Assim, temos que restabelecer sem cessar, a relação e a harmonização entre o homem e a mulher em vários níveis. Somos constituídos por 12 corpos, 12 níveis de consciência, e cada um desses corpos pode se tornar um corpo de sofrimento. Então, como dois corpos diferentes se encontram? Quais as dimensões que são reconhecidas, e quais permanecem desconhecidas para um e para outro ?

O corpo da memória, por exemplo, tem a ver com as memórias ancestrais que nos habitam, é trans geracional, coletivo. Por vezes esse corpo está doente porque não conhecemos nossos ancestrais, às vezes não sabemos quem é nosso pai, para alguns isso é um grande sofrimento. Qual a linhagem a qual pertencemos? Precisamos nos tornar livres dessa descendência. Em nosso corpo está toda a nossa família e todos os nossos ancestrais, temos nossa herança em nosso sangue. A cura só pode vir através da aceitação. Tudo que não é aceito não é transformado. Tudo que não é assumido, não é salvo. Temos que assumir nossa herança, nosso código genético, e aceitar os ancestrais do outro. A dificuldade do encontro às vezes é entre as nossas duas famílias, entre duas educações que recebemos. O inconsciente é habitado pelos ancestrais, então é importante compartilhar isso com o outro. Os fantasmas ocupam a relação e nos impedem de nos conhecer verdadeiramente.

O corpo de apetite se relaciona à fome, sede. Nosso corpo se torna aquilo que comemos, cada um pode observar em si mesmo os seus gostos e desgostos. Existe a angustia do vazio que preenchemos com alguns alimentos, por ex. na anorexia, na obesidade, etc. Temos que conhecer o nosso próprio corpo de apetite e o do outro. Apetite tem a ver com o gosto de viver. Às vezes num casal o apetite funciona muito bem, quando estão à mesa, aí está a verdadeira felicidade; a vida pode ser difícil quando um come carne e o outro é vegetariano. Em todos os níveis pode ser que damos ao outro o que temos de melhor, mas o outro não se alimenta disso. Como respeitar o desejo e apetite do outro? Essa é, às vezes, a fonte de muitos dramas. Como harmonizar os nossos apetites? Respeitar a dieta do outro e poder viver junto. Por vezes, não compartilhar prazer, pode afastar.

O corpo de pulsões, no nível da libido, é muito intenso. É interessante saber quais são nossos animais interiores. Qual é a minha vida pulsional, não somente no nível da sexualidade, mas também da violência. Às vezes em um casal, a violência é muito destruidora; é sempre uma energia da criatividade que não é expressa através de obras criadoras. Por vezes, em uma relação de casal, é esta energia que se enfrenta, portanto é importante ter em conjunto uma obra compartilhada, quer seja a criação de uma criança, de uma casa.

O corpo da emoção: alegria, tristeza, raiva. Somos mais ou menos emotivos, por vezes nos deixamos invadir por nossas emoções, nos tornamos escravos dela, nos tornamos objetos e não mais sujeitos dessa vida emocional. Temos tendência a impor nossas emoções, mas trata-se de estar na escuta e no respeito. Porém, compartilhar emoções juntos através da lágrima ou do riso, pode harmonizar esse corpo. Às vezes não expressamos emoções e as reprimimos,  não nos expressamos direito. Introduzir a consciência nas nossas emoções não as destrói, as liberta.

O corpo das palavras. Alguns de nós falamos sem cessar, e quando não somos nós, é o rádio ou a TV, um corpo barulhento. Para outros casais, a falta de palavras é uma dificuldade. Temos que colocar palavras na vida interior, porque a palavra é sagrada. Enquanto o casal consegue conversar, a vida é possível; quando não se pode mais falar, quando não se tem mais palavras para dizer ao outro o que tem de ser dito, mesmo que difícil, a vida do casal empobrece. É muito difícil dizer a verdade ao outro, é preciso amar muito. Ser capaz de dizer não te amo mais. Mas talvez existam outras formas de amor a descobrir no outro, um outro nível de amor mais profundo.Se somos capazes de conversar, de dizer a verdade ao outro e não temer a verdade que há em nós e no outro, acontece uma harmonização. Não há como viver na mentira, isso é uma forma de esquizofrenia.

O corpo de pensamentos. Normalmente nossa fala expressa nossos pensamentos. A mentira não expressa os pensamentos. Às vezes há uma grande distância entre o que pensamos e o que somos. O “sou quem sou “ se expressa através do pensamento, este se expressa através da palavra e esta se expressa através da ação. Mas às vezes não estamos nesse nível de transparência. Quando dois corpos de pensamento se encontram, podemos sentir os pensamentos um do outro. Às vezes isso não acontece, e os não ditos podem destruir o casal. Pensamento é energia e o silencio da não comunicação, é um silêncio de morte. Quando não se pensa mais na mesma direção que o outro, surge a questão: “o que você está pensando? sinto que você pensa em outra pessoa”. Às vezes dormimos no mesmo leito e não dormimos no mesmo sonho. São corpos de sofrimento que se enfrentam e que não tiveram tempo de esclarecer seus pensamentos. A comunhão de pensamentos em um casal traz muita harmonia, o mesmo cumprimento de ondas.

O corpo de desejo se trata de uma orientação que quero dar à minha existência, aquilo que realmente quero e faço todo o necessário para que essa vontade se realize. Alguns casais se separam neste nível, porque as vidas tomam direções diferentes. Um tem desejo de sucesso social e financeiro, mais o outro quer um sucesso mais afetivo e interior, ser bom e feliz. Às vezes não há mais um projeto ou futuro comum. Se sou fiel ao meu desejo profundo, ele pode ser incompatível com o desejo do outro. Então é necessário ter o amor e a coragem para se separar porque não dá para dois estranhos viverem juntos.

O corpo do sentimento. Será que meu corpo tem um coração? O meu caminho tem um coração? O que pratico tem um coração? Na relação com o outro, o coração está mesmo presente? Será que temos o desejo do bem do outro, que não necessariamente é a mesma felicidade que a minha? É no contato com o outro que tem um coração, que tocamos o divino que habita em nós.

O corpo dos sonhos são imagens arquetípicas, sons e imagens que nos habitam. Será que é só a imagem do outro que eu amo, ou o é outro em si mesmo?

O corpo de louvor. Há graça e poder no louvor. O fato de fazer isso junto com o outro pode ser uma fonte de união profunda.

O corpo de luz. Podemos ver a luz que está entre nós e a luz que está no interior de nós. Duas pessoas às vezes podem se encontrar nessa luz, são os corpos de luz que se envolvem.

O corpo do silêncio. Às vezes somos sensíveis a essa profunda presença do outro. O silêncio além de todas as palavras.

Assim como há 12 discípulos de Cristo, esses 12 corpos são discípulos do “Eu Sou”. O encontro com o “Eu Sou” do outro se dá no presente. O corpo do outro é, por vezes, um país no qual nunca chegamos. Quantos corpos se encontram na relação de um casal? Acredito que ninguém consegue se encontrar em todos os níveis. Mas podemos desenvolver um encontro mais rico e profundo nos corpos que não se encontram.

Há um texto da tradição grega, de Platão, que se refere à busca do outro como sendo a metade faltante; esse texto influenciou muitos pensadores e a nós mesmos. Será que estamos buscando a outra metade ou verdadeiramente um outro ? No banquete, na fala de Aristófanes, ele se refere a Eros como um tipo de amor que precisa preencher a falta. Nesse mito, o outro nunca é amado por si mesmo. Faço uso do outro para alcançar a minha plenitude. Amo no outro o meu próprio reflexo que se parece comigo – isso é narcisismo.

Há um texto no Gênese onde a diferença entre homem e mulher é a própria imagem de Deus. “No início nasceu a luz, o não manifesto se manifesta. Nada existe por si, tudo é ligado e interligado. O que conhecemos da vida são as manifestações, mas a vida em si mesma não conhecemos, ela se mantém escondida. O semblante do outro mostra o invisível. Os Eloim, energias criadoras, fazem existir todas as coisas, é como um sopro sobre o caos. O dia e a noite, a terra e a água, como um processo de separação, de diferenciação. Macho e fêmea criados por Eloim. A imagem de Deus como a relação entre ambos, não é o homem nem a mulher, é a relação. No evangelho, aquele que ama permanece em Deus e Deus permanece nele. Nessa visão, a diferenciação sexual é percebida como positiva, é através dela que a vida se comunica. Não é bom que o ser humano permaneça só. Ele só pode ser feliz se tiver uma relação com o outro, aí ele se torna inteiro, dois seres inteiros, duas autonomias. Para Reiner M.Rilke, o amor que nós buscamos é o encontro de dois sujeitos que se inclinam um ao outro para que cada um chegue à sua plenitude. Não existe a necessidade do outro, é um amor mais maduro. A tradição hebraica é diferente da tradição grega.

Há um texto que pertence ao Novo Testamento que diz que, quando estamos no arquétipo do Cristo, não há mais macho nem fêmea. Como se vive o encontro a partir desse pressuposto? Na carta aos Gálatos diz que, quando entramos no arquétipo divino, não há nem judeu nem grego, não há mais escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea. Nos tornamos um na consciência do Cristo presente. Há que ultrapassar a diferenciação sexual, somos pessoas inteiras, cada um é um ser humano pleno. São relações de pessoas, somos iguais em dignidade. Em cada homem e em cada mulher a essência divina, a presença da divindade em cada um. Há que reconhecer a presença do Ser no outro porque, antes de tudo, reconheci em mim mesmo. No casamento na antiga tradição cristã, cada um coroava o outro. Há dois senhores, um príncipe e uma princesa. Nesse texto somos chamados a nos respeitar mutuamente.

Três grandes tradições, a grega, a hebraica, e a cristã, que talvez sejam 3 etapas da nossa existência.

No Evangelho de Felipe a presença de Deus se revela no encontro íntimo do homem e da mulher, no leito nupcial.

Em todos os corpos podem aparecer parasitas, mas o corpo do Bem Aventurado habita em nós e pode neutralizar essa contaminação. É a beatitude do Eu Sou que pode ser vivida em todos os níveis do nosso ser e compartilhada com o outro.

Os antigos chamavam o Bem Aventurado de arquétipo da síntese, o que faz a ligação entre o humano e o divino, a matéria e o espírito. Na tradição cristã o Bem Aventurado é o Cristo, e nas tradições antigas ele está representado entre João Batista e Maria Madalena. João Batista é o asceta, o homem do deserto, da justiça,  e Maria Madalena é mais a dimensão da beleza, da generosidade. A pessoa de Jesus vai integrar essas qualidades do masculino e do feminino. Integração da justiça e da misericórdia. Isso é representado nos ícones, é a maneira de representar o semblante de Cristo.

O encontro é o encontro de dois diferentes e no ser inteiro há o masculino e o feminino. Quando estamos em estado de meditação, estamos além da forma. Aí é o Eu Sou. O bem e o mal não são separados, assim como não são o dia e a noite. A realidade quântica é ao mesmo tempo onda e partícula. O arquétipo da síntese contém os contrários.

Cristo é a síntese entre Deus e o ser humano. A noção de Deus é uma noção humana. Não há Deus sem um ser humano que testemunhe essa realidade. E um homem sem Deus não tem profundidade. Não há homem sem Deus e Deus sem homem. Cada um de nós é o visível no invisível. O esforço e a graça andam juntos. O arquétipo da síntese está em nós, assim com a capacidade de integração: Pai/Filho/Espírito Santo.

 

 

Jean Yves Leloup

Workshop de Psicologia Transpessoal – Alubrat

25 e 26 de março de 2017

 

A vontade de curar e o Impulso Crístico

 

No Congresso de Natal de 1924 Rudolf Steiner proferiu a seguinte frase :  “ Que as pessoas se tornem aquilo que fortifica o mundo”. Todos nós temos uma tarefa sanante que cura algo no mundo. No evangelho, os discípulos foram enviados para sanar o mundo. Steiner disse que o impulso crístico da atualidade se mostra na atividade de cura.

O que a proposta de sanar tem a ver com o Cristo ? Steiner falou muitas vezes sobre a força de vontade e a coragem de curar. Quando ele falava sobre Ita Wegman, ele dizia que ela tinha essa coragem. Gostaria então de abordar nesta palestra de hoje, as qualidades de alma que Ita Wegman possuía e que todo ser humano da atualidade também possui.

Em relação ao pensar, o curar tem algo a ver com o reconhecer. Se quisermos ajudar alguém, temos de entender o que lhe falta. Nós vemos o sofrimento de uma pessoa, mas só ver não significa a solução para resolver esse problema. É uma tarefa de compreensão entender a partir do que e de onde vem o sofrimento do outro, assim como a ajuda para tirar esse sofrimento. Sabemos que hoje não são apenas seres humanos que sofrem, mas sim toda a Terra.

A consciência desse sofrimento existe em muitas pessoas, mas muitos não têm o diagnóstico nem a terapia corretos. Se realmente queremos ajudar para a solução do sofrimento, temos que trabalhar intensamente no âmbito da compreensão. O termo diagnose (do grego) significa que se olhe através da doença para a terapia.

Quando perguntamos a alguém “o que lhe falta ?”, pode ser que seja o sentido da vida, um amigo,ou o processo de ferro no sangue; quando se pergunta isso, não é uma questão de perguntar o que o faz sofrer, mas sim, do que ele tem necessidade. O que temos que aprender não é somente ver a necessidade, mas o que a origina e como podemos prover essa necessidade.

É uma questão de coragem olhar o que está além do aparente para chegar ao cerne do problema. É muito simples dar sonífero a quem não consegue dormir. Pesquisar o motivo da insônia já exige mais trabalho. E trabalhar com o paciente no problema que causa a insônia, exige outro empenho.   É uma questão de coragem, de força de vontade. Porque adentramos uma situação difícil, não se tem a resposta imediatamente, pois o sintoma não é o problema em si.

Tenho que fazer uso do meu Eu que quer reconhecer algo do problema.    Nos âmbitos social e político, a explicação para tudo é muito rápida, só se corrigem os sintomas. Mas se queremos passar além disto, faz-se necessário adquirir uma força de vontade que quer abarcar e saber. Isso é um princípio Crístico primordial: fazer juízo próprio e uso da própria razão. Para Emanuel Kant “o conhecimento é o início para o ser humano poder sair da sua dependência auto-inflingida”. Se nós queremos curar, temos que dar conta da tarefa de esclarecermos as coisas.

Antroposofia é uma ciência do conhecimento. Ela não é primariamente algo que concerne ao sentimento, mas sim ao pensar. Não é apenas pensar, mas ela começa com o pensar e com a atividade do Eu dentro do pensar. Eu desconfio daquilo que vem a mim como julgamento alheio, eu próprio quero formar meu julgamento.

Ita Wegman antes de ser médica era fisioterapeuta e trabalhava com massagem, mas cada vez mais se sentia frustrada porque tinha que executar o que os médicos indicavam para os pacientes, não lhe era permitido formar o próprio diagnóstico nem a terapia. Ela queria assumir a responsabilidade pelo que fazia, mas só podemos assumir responsabilidade pelo que reconhecemos e entendemos por nós mesmos.

A Medicina Antroposófica começou como um novo caminho cognitivo. A Pedagogia Antroposófica também começou com esse mesmo caminho. Na pedagogia temos a tarefa de saber, por exemplo, o que leva a criança a ser muito agitada. A Agricultura Antroposófica também tem esse impulso, onde tentamos entender o que leva a planta a criar uma doença, e não só utilizarmos produtos químicos.

Assim vemos que em todos os âmbitos, se queremos atuar de forma sanante, precisamos de um profundo julgamento, e a Antroposofia é um impulso de coragem para formar seus próprios julgamentos. A atuação crística do século XX se apresenta em pessoas individuais que adquiriram a capacidade de criar uma atividade própria no pensar em vários âmbitos da cultura. Pessoas que usaram um pensar diferente da corrente comum para procurar a verdade. É uma questão de coragem ser contrário ao que a massa pensa ou comunga. Quantas vezes assumimos os julgamentos alheios sem passar por um pensar próprio? A vontade de curar tem a ver com coragem.

Mas situações humanas não apelam apenas ao pensar, mas também ao nosso sentir. Segundo R.Steiner “ se nós sentirmos o ar que nos circunda, ele tem oculto em si a coragem”. Todos nós sabemos que pessoas que tem medo, também têm problemas respiratórios. Se prestarmos atenção profundamente, perceberemos que é nesse âmbito que abarcamos o mundo para dentro de nós e nos expandimos no mundo. No âmbito da organização rítmica da respiração, estamos abertos. Todos nós inspiramos e expiramos o mesmo ar.

Percebemos que neste âmbito do sentir comungamos com o entorno. É uma questão de coragem se permitimos essa aproximação do outro, ou se nos afastamos. A inspiração pressupõe uma confiança no mundo, um gesto de simpatia, e a expiração é algo do qual me distancio. Quando temos uma situação difícil tendemos a não querer inspirar, pois trazemos para dentro de nós o problema.

Ita Wegman tinha esse ímpeto de ir até a pessoa doente. Ela queria que a situação do paciente se aproximasse para bem perto de si. Há que se ter coragem para inspirar o sofrimento e a necessidade do outro. Sabemos que Francisco de Assis se dirigia aos leprosos e não se contaminava, ele adentrava essa miséria.

R.Steiner dizia : “ não amem somente os doentes, mas aprendam a amar as doenças”. Geralmente temos uma relação muito negativa para com as doenças, mas também para com os problemas sociais, as guerras, para tudo o que é negativo no nosso mundo. O convite para “amar” uma psicose ou uma leucemia soa tão absurdo como se tivéssemos que amar as drogas ou a guerra, pois é obvio que são características que tem a ver com o mal, e o queremos manter bem distante. Podemos perceber que quando nos distanciamos do mal, ele não desaparece, mas procura outro endereço.

O mundo inteiro está hoje repleto de pessoas que estão fugindo, são 60 milhões de refugiados. Os países fecham suas portas, mas o problema não se resolve. É óbvio que os refugiados não são o mal, mas do que eles estão fugindo é muita maldade e teríamos que nos haver com isso.

O impulso crístico tem a ver que se permita que aquilo que é escuro e mal se aproxime de mim na esfera do sentir. Cristo acolheu Judas em seu circulo de discípulos. Exige uma certa coragem admitir o mal nesta esfera e inspirá-lo.

Ita Wegman tinha uma força cognitiva médica inspiradora. Isso inclui a inspiração. Ela era uma médica que procurava o encontro com o paciente, com a doença. Isso não quer dizer se tornar doente também, mas sim, deixar a doença se aproximar tanto afim de que o impulso da terapia desperte e possa ser aplicado. Ela, em silêncio, deixava-se permear pelo paciente, e aí surgia a resposta. Muitos impulsos terapêuticos novos surgiram da convivência com o doente e a doença, e não com a distância.  Na aproximação pode surgir uma intuição da terapia. Essa força do amor que se une ao mal possibilita uma transformação. Se quisermos realizar esse impulso de cura no âmbito do sentir, temos que permitir que a maldade do mundo chegue a nós.

Como se dá essa coragem no âmbito do querer? Esse âmbito é a vida e a morte. No pensar, luz e trevas, no sentir, calor e frio, e no querer sempre se dá a luta entre vida e morte. Sabemos na medicina que a morte está sempre presente nas doenças graves. Mas também nas nossas atividades sociais, sempre há a possibilidade de destruição, do fim, e com isso acoplado vem essa tonalidade da alma que tem a ver com a falta de esperança.

O que nos é colocado neste âmbito como tarefa é que conquistemos a confiança. Na Grécia havia uma indicação de que os médicos não deviam tratar os pacientes desenganados. Provavelmente isso lesaria a reputação do médico. O grego tinha uma relação problemática com a morte – ela era o fim da vida, um nada. Para R.Steiner os médicos deviam se digladiar com a morte, se confrontar com a morte. A tarefa do médico é ajudar para a vida, eles devem fortalecer as forças vitais do paciente, e não formar prognósticos à respeito da morte, pois senão o paciente morre. O terapeuta não deve abrir mão da vida, deve manter a esperança.

Hoje em dia na Terra podemos prognosticar a morte em vários âmbitos: social, ecológico, econômico. Muitos jovens que se retraem para a vida particular já abriram mão de atuar no social ou na política, como faziam os jovens de 20 anos atrás. Muitos deles não têm mais esperança de que possa vir a superação de uma situação que atualmente se apresenta no mundo.

Ita Wegman tinha essa força incrível na superação do indivíduo, tinha uma fé que movia montanhas. Ela tinha essa fé não só em respeito às doenças, mas em situações difíceis da vida dos pacientes, força de vontade para procurar uma solução junto com o paciente. R.Steiner dizia que os médicos teriam que desenvolver força de vontade para o carma, para o destino. Assim que, se como médico me empenho para transformar uma situação do paciente, me ligo ao seu destino e a situação se torna um pouco minha também. Não é suficiente dar um bom conselho, o paciente tem que sentir que o médico está de forma existencial lutando e buscando uma solução.

O impulso crístico é, nesse sentido, a disposição de entrar com responsabilidade numa tal situação ; quando nos unimos a ela não somos mais só espectadores, mas nos tornamos parte dela. Na atualidade, esse impulso no âmbito social tem a ver com que atuemos com o nosso querer de tal modo que nos tornemos parte dele e assumamos responsabilidade por ele. Muitas vezes não queremos nos comprometer, entrar numa situação difícil. Mas seria sim nossa tarefa nos envolvermos com o que sabemos ser um descaminho. Faz parte sanar o que é difícil.

Ita Wegman possuía a capacidade de sacudir os pacientes para lembrá-los dos propósitos de suas vidas. Trata-se da questão onde, com o meu Eu, entro no querer. Temos que olhar para esses 3 âmbitos, pensar/sentir/querer, e o Eu nessas forças. Sua clinica era um espaço onde o impulso crístico vivia na comunidade como um todo. Pessoas que desenvolvem essa vontade crística necessitam uma comunidade ao redor que também queira fazer isso dessa maneira. Muita alegria, muita leveza e calor viviam na clinica em Arlesheim, na Suíça. Um ambiente de cura precisa dessa leveza, de humor, de cores e alegria para não se tornar algo estático, estarrecido. Apesar de todas as dificuldades que encontramos no mundo atual, encontramos também esses impulsos.

O Espírito de Cristo sopra onde ele quer.

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Palestra proferida por Peter Selg

Sociedade Antroposófica do Brasil

22 /03/ 2017

Published in: on 04/04/2017 at 7:30 p04  Deixe um comentário  

Cartografria da Consciência

 

O Tantra é uma filosofia da libertação para a liberação da kundalini, a vida em abundância como falava Cristo.O livro do corpo é o primeiro que temos que abrir na vida, é preciso aprender essa linguagem.O segundo é o livro da natureza, precisamos conhecer as leis que a regem.O terceiro livro que abrimos é o livro do “instante”, o que está acontecendo agora na vida.

Estamos ancorados no pacote da memória e existem 3 máximas que deveriam ser observadas : 1) Nunca reclame daquilo que você permite ;   2) Você se torna melhor naquilo que treina mais ; 3) Ligue os pontos .Em 2008 conheci o 8º chakra com um mestre na Índia, o nome deste centro de energia é “chama” cujo significado é calma. Este encontro me despertou para a pergunta matriz, que é aquela que pode nos mover na direção do plano do Universo : “ O que quer acontecer agora ? ”. Temos que entender sobre as frequências de onda e como funcionamos.

A Cartografia da Consciência tem 4 níveis pessoais, que tem a ver com os paradigmas e como pensamos o mundo, e tem 5 níveis transpessoais, que são os patamares de consciência que alcançamos. Nós podemos alterar alguns aspectos. Como você está neste momento ? Quais são os seus desafios e propósitos no campo da realidade ? Qual sua relação com prosperidade, prazer e poder ?

O mapa indiano, o eneagrama, as leis herméticas podem ser utilizados para conhecer aspectos do grande campo da transpessoalidade. Quando trabalhamos todos esses aspectos podemos observar como a vida pode se modificar.

A fonte de todas as nossas doenças é o estresse, que é gerado pelo medo. Nelson Mandela falou que o nosso maior medo é abraçar a nossa grandeza.

Já abordei o tema sobre como somos regidos pelo campo da escassez (Visões de Mundo) e como não fomos treinados para a abundância. Somos prósperos quando temos raízes e isso tem conexão com o primeiro chakra. O que precisamos aprender nessa dicotomia ? Temos a ideia da falta como um fato básico. Não há condições de a vida acontecer sem tempo, mas estamos com um modelo mental tão escasso que não percebemos que o tempo é abundante. O que você quer que esteja no seu tempo ?

A vida não exige de nós nenhum comportamento específico, não é uma questão de mérito. A vida nunca desiste de nós, ela acredita sempre no potencial de cada um encontrar-se nela. O campo é abundante para estar sempre provido, mas como temos o paradigma da escassez, estamos sempre focando no que nem é vida.

Pensamos diferente dos orientais. A qualidade de vida – bem estar, poder, sensação de sentido – é do campo do Carma. Para os orientais existe a lei de causa e efeito, mas os ocidentais têm o pensamento mágico de que não vivem num campo de conseqüências. Para o ocidental a responsabilidade da vida é externa – da sociedade, do outro, do governo.

Sempre fazemos um recorte da realidade de acordo como a vemos. A realidade é o que acontece, e como lido com isso, é o meu papel na relação com a realidade. Tudo que acontece é por si mesmo, não é algo que nós temos que decidir.

A primeira lei da natureza é que tudo é impermanente. Estamos muito focados nos aspectos materiais da realidade, mas, de fato, os aspectos imateriais é que fazem a diferença.

Do ponto de vista vibracional, felicidade é bem fácil de ser alcançada.O estado de alegria é um estado natural, mas fomos colocados numa fôrma na sociedade e perdemos isso. Os mestres acham graça em tudo. A vida sempre nos convida à evolução e quando não temos problemas, evoluímos muito pouco. Precisamos abraçar campos de desafio.Estudar, viajar para lugares diferentes, entrar em contato com coisas e pessoas de outras culturas, são desafios.

Viemos para a Terra para aprender a sermos terráqueos, e não conseguimos aterrar! Quanto mais perto da Terra, mais pragmáticos somos, e quanto mais pragmáticos, mais aptos nos tornamos para encontrar a solução. Cada um de nós traz a fórmula especifica da capacidade de consciência, a resposta está dentro dela.

O foco do primeiro chakra é resultado. Enquanto a pessoa não se dá conta que não sabe, a situação não flui. Para este primeiro nível de consciência é preciso que tenhamos clareza para saber o diagnóstico : da raiz da palavra em grego, conhecimento (gnose) do sagrado (dia). Vida não é esforço, é estratégia e fluxo. O esforço é a base da escassez.A prosperidade é algo que exige de nós uma certa clareza. Espiritual e material não são coisas separadas, tudo é freqüência de onda, tudo é espiritual.

O chakra umbilical, o segundo nível da consciência, traz a dicotomia entre o dever e o prazer. Somos sistematicamente treinados para o campo do dever e isso traz um desequilíbrio para este chakra. Culturalmente não tivemos treino para o prazer.         “Como você se diverte ?” é a pergunta para esse nível. Assim, a alegria é um campo difícil de ser alcançado. O prazer de estar, de vestir, do paladar, da audição, da visão. Devemos nos abrir para a arte e a beleza. O prazer depende de nós e precisamos nos alinhar com aquilo que aumenta nosso bem estar, que nos deixa mais felizes. Quantas vezes nos culpamos por estarmos bem ? A raiz da palavra proteção é “colocar-se no melhor lugar”. A natureza nunca promove desperdício. Ninguém transforma ninguém e ninguém se transforma sozinho. A transformação se dá no encontro. Você tem o poder de desenhar a sua vida.

O terceiro chakra, plexo solar, tem muito a ver com a forma como digiro as coisas. A palavra chave é poder e a dicotomia neste nível é entre a intuição e o instinto. O instinto não é o melhor regulador da consciência ;  medo, carência e raiva estão nesse campo. Um corpo dominado pelo medo e pelo controle sente muita dor. O medo é necessário para a vida mas não pode gerenciar a consciência. Os instintos não podem ser gerenciadores emocionais, eles estão ligados ao corpo físico.

Consciência e apego estão associados. A raiva é fundamental para superar obstáculos físicos, mas quando se torna campo consciencial vira reatividade e sequestra a nossa vontade. A pergunta neste nível é: “ Quais são as minhas atitudes ? ”. Na intuição o controle se transforma em confiança – fé em si, na vida, senso de entrega. A roda dos ventos da Cartografia da Consciência são quatro (4) :

  • Você é livre
  • Abundância para fluir
  • Criatividade é o oposto de reatividade
  • O amor é a grande energia geradora do Universo

Precisamos vibrar mais elementos amorosos em nós, porque a criatividade é gerada aí. É importante perceber a vibração amorosa no campo da consciência. Não somos treinados para amar nem para receber amor. Temos que sair do medo, da carência e da raiva e caminhar na direção da fé, da abundância e do amor. Migrar do instintivo para o intuitivo é a direção da liberdade.

Todas as coisas que sabemos foram aprendidas, e todas as coisas que não sabemos podem ser aprendidas. Se eu quero o novo tenho que transpor o campo do conhecido para o desconhecido. Se você tem um propósito ou um sonho, é porque você já tem a capacidade de realizá-lo, isso já é do campo da consciência.

No quarto chakra temos duas vibrações : amorosidade e cura. Esse é o último nível pessoal. Ninguém e cura e ninguém te ensina, os indivíduos ao redor são facilitadores, é você quem se cura e quem aprende. O campo amoroso é criativo. Precisamos adotar tecnologias para cuidar de nós e nos ensinar o caminho da cura.

É possível ser longevo e ter qualidade de vida. A pergunta nesse nível é :“ Como eu sinto a vida ?” . Quando me dou conta disso começo a utilizar os recursos ao meu redor. O caminho de cada um é único. Este nível tem a ver com pulmão e coração, alegrias e tristezas. Esse é o primeiro nível sem dicotomia, pois nos aproximamos do nível transpessoal.

Segundo Joseph Campbell, na jornada do herói os inimigos internos são sempre mais fortes, portanto precisamos vencer o inimigo interno, amar esse inimigo. Quando foi que você começou a deixar de apreciar a pessoa que você é? Quando foi que perdemos a emanação essencial que é amar a nós mesmos e a buscar ser uma pessoa que não somos? Quando nos afastamos da nossa beleza essencial? Somos uma coisa magnífica, precisamos reconhecer o ser raro que somos e não temos que ser igual a ninguém. Somos uma improbabilidade matemática, somos um milagre. O resgate essencial é amar a si como se é.

 

Dulce Magalhães (in memorian)

Aula proferia em 03/02/2017 no Curso de  Pós Graduação em Psicologia Transpessoal  Alubrat

Obs : os acima mencionados 5 níveis transpessoais da Cartografia da Consciência não puderam ser expostos na aula do dia seguinte por motivo de falecimento

Published in: on 01/03/2017 at 7:30 p03  Deixe um comentário  

A Transformação do Mundo e o Auto Conhecimento em face do Mal

 

Esse é o tema mais atual e importante do século 21.

Qual a origem do Mal ?

Em literatura filosófica ou teológica, sempre se encontra o conhecimento do Mal, e desde que a humanidade começou a pensar, existe a necessidade de explicar o surgimento do Mal, mas no entanto não consta uma explicação satisfatória .

Durante muito tempo na história da humanidade, não havia a necessidade de explicar porque existia o Mal, ele simplesmente estava lá.

Na Bíblia, temos descrições do Mal, mas nenhuma explicação de onde ele veio. No primeiro capítulo do Gênesis começa a seguinte frase : “..e a serpente era a mais astuta de todos os animais que Deus criou”. Ela estava lá. Na tentação de Jesus dos 40 dias no deserto, o tentador estava lá. No apocalipse, na luta de Micael contra o dragão, este já estava no céu, não se sabe como chegou lá. Nos contos de fadas, como p.ex, o do Chapeuzinho Vermelho, o lobo já está lá no bosque.

Em muitas dessas imagens, o Mal faz parte. Em algumas mitologias, isso já se encontra diferenciado, ou seja, já existe algo ou algum lugar de onde surge o Mal. Mas a necessidade de fato de entender o Mal surge na Grécia com o pensar lógico. Na Grécia tinham muitos deuses que estão relacionados com a realidade espiritual que se encontra atrás da meteorologia : Zeus, Deus do trovão e do relâmpago. Mitologias reconheciam o Mal e o Bem como forças originais, mas não chegam até aquela ideia de que tudo tem a sua origem.

Um dos primeiros filósofos, Epicur, em 300 AC, reconheceu o problema de tentar explicar a origem do Mal. Ele se colocava questões como :”Ou Deus quer eliminar o Mal e não pode, ou Deus não quer eliminar o Mal ; se Deus quer eliminar o Mal e não pode, ele é impotente e não é Deus ; se Deus pode eliminar o Mal e não quer, ele é malvado ; se ele pode e quer, porque não o faz ?”

Esse é na realidade o problema que nós temos. Um grande problema da filosofia foi tentar explicar o campo de concentração nazista :  Como Deus permitiu isso ? Como é possível que isso tenha existido ?

Existem aproximadamente umas 7 tentativas filosóficas e teológicas para tentar explicar de onde vem o Mal.

Uma delas, que se tornou a base da teologia católica, formulada por Agostinho e aprimorada por Tomás de Aquino, é que Deus em si é completamente bom, e por isso ele permitiu o Mal. Uma imagem que não explica, mas que nos ajuda a entender este ponto de vista, está na passagem da quinta-feira santa quando o Cristo diz a Judas para ir e fazer o que tinha de ser feito. O Mal não é criado por Deus, mas ele é permitido. Na cultura cristã a ideia é de que havia surgido um Deus bom.

Culturas mais antigas tem muito mais o pensamento de que o Bem e o Mal são as duas forças originárias de todo o mundo. Luz e Trevas eram desde o início Bem e Mal.

Uma terceira tentativa de explicação seria talvez a de reconhecer que os seres que provocam o Mal são anjos caídos. No Apocalipse existe a luta de Micael contra o dragão que é jogado na Terra com seus anjos. Por que eles caíram ?

Outra visão é a de que o Mal está na essência de Deus, de Deus em si, esta qualidade está n’Ele.

Outra possibilidade de explicação é a tendência de entender o Mal como uma imperfeição da natureza. Hoje em dia, é o que mais está no sentimento das pessoas. Por exemplo, quando aconteceu recentemente o assassinato de jovens por um homem numa colônia de férias da Noruega. O assassino era doente ou não? Há a tendência de dizer que algo no corpo dele não estava correto e isso causou esse comportamento, explicando o Mal a partir de uma doença. Diametralmente oposta é a concepção da cultura judaica no antigo testamento, para quem a doença é a conseqüência de um pecado, o pecado é que provocaria uma doença.

Um sexto ponto de vista traz o ser humano como causa do Mal. O Mal não existe em si, mas só no ser humano, como diz Guimarães Rosa, que começa seu livro Grande Sertão com um moto “o diabo no meio do redemunho”. O que está no meio do redemoinho ? O silêncio, o vazio. “O diabo vige dentro do homem…”  Na natureza não se pode falar de moralidade, porque essa é uma categoria do ser humano. O leão mata a gazela porque tem fome, não porque é malvado.

Dentre estes pontos de vista que se desenvolveram a partir da possibilidade do ser humano pensar logicamente, podemos encontrar um outro na Antroposofia. Rudolf Steiner apresentou muitos pontos de vista que nos trazem imagens mais completas e complexas de como o Mal pode ter surgido. Um dos primeiros é o conceito das hierarquias superiores. Vamos tentar pensar nessa realidade de 9 hierarquias, começando do ser humano até chegar à esfera que está acima, a esfera do divino , da Trindade, às três qualidade de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo.

Se tentarmos conceber a realidade espiritual das hierarquias e daquilo que está acima delas, a Trindade, temos que igualmente conceber que o Mal está nessa origem. O Mal tem um sentido, uma tarefa, ele tem que existir. No último capítulo de seu livro O Conhecimento dos Mundos Superiores, R. Steiner descreve o desenvolvimento do mundo espiritual dizendo que este havia chegado a um ponto em que não havia mais como ir para a frente, e que para isso ocorrer seria necessário que surgissem seres com determinadas qualidades : esses seres eram os seres humanos. E que qualidades seriam estas que o ser humano teria que desenvolver para possibilitar a continuidade de desenvolvimento dos seres espirituais ? Por um lado a liberdade e por outro o amor.

O nosso planeta Terra e a natureza estão repletos de sabedoria, mas não de amor. Essa é a tarefa do ser humano, desenvolver a liberdade e a partir dela, a qualidade do amor. Assim como a natureza é reflexo de sabedoria, nos tempos vindouros, em uma próxima etapa futura da Terra, a natureza deverá ser repleta de amor. Isso nos remete à possibilidade de escolha entre o Bem e o Mal. O Mal está na vontade de Deus porque é necessário para nós humanos, para que possamos desenvolver a liberdade.

Como Deus criou o mundo ? “ O espírito de Deus pairava sobre as águas”. Deus não só cria algo, ele separa. Ele separou a luz das trevas. A tendência da separação está na vontade de criação de Deus. E o que acontece quando se separa ? Pode ser que aconteça algo bom, e pode ser que não. Nós fomos separados do Paraíso e a possibilidade de reconhecer o Bem e o Mal só foi possível depois de comer da árvore do conhecimento.

A separação provoca uma consciência maior. Também pode acontecer de , com a separação, surgir uma força não ligada à vontade divina, mas sim, com uma vontade própria.

Steiner descreve como seres muito elevados assumiram a tarefa de se separarem dos outros. Na realidade, fizeram um grande sacrifício, algo que realizaram para o desenvolvimento do Universo. Esses seres espirituais tem um relacionamento meio que “religioso” uns com os outros, eles se doam uns aos outros em devoção. E o que acontece quando uma hierarquia inferior tem uma atitude de fazer uma oferta para uma hierarquia superior, e essa oferta é rejeitada ? Abel faz seu sacrifício que é aceito por Deus, Caim faz o seu e é rejeitado, surgindo então o impulso de matar o seu irmão.

A rejeição é uma fonte de grandes problemas sociais. Quando olhamos do ponto de vista do desenvolvimento, o Mal só existe porque está fora do tempo e do lugar. O correto tem que ser correto no tempo correto. O que para um jovem é completamente correto, para uma criança é errado.

É no meio do redemoinho que temos que desenvolver o nosso Eu, e nesse espaço de possibilidade ainda vazio, criar a força de tomarmos decisões a partir das emoções. É nesse espaço que pode surgir o Mal no ser humano porque do amor a si próprio em muita quantidade surge o egoísmo. Na realidade estamos sempre entre a escolha do Bem e do Mal, e a tarefa é ter equilíbrio em relação a tudo. Isso é uma chave para lidar com o Mal cotidiano.

Steiner fez uma grande escultura de madeira cuja imagem traz uma polaridade entre seres com o homem no meio deles realizando o equilíbrio de forças. No Jó do antigo testamento, Satanás conversa com Deus e consegue permissão para tentá-lo. Mas Jó não tem ainda esse adversário em si, o Mal ainda está só do lado de fora. O Fausto de Goethe não é tão puro como Jó, ele já tem em si o desejo de conhecer.

A atuação do Mal que tem muito a ver com a nossa atualidade está ligada ao desenvolvimento da genialidade com a anulação do que são as forças do amor. Na atuação do Mal a partir do século XIX temos o “dragão” atuando na Terra, e uma demarcação clara disto é o nazismo, o processo industrializado do Mal.

As tempestades para nós não são mais uma manifestação do Mal, mas sim, como nos resolvemos no íntimo de nós mesmos. Na confrontação com esta tarefa, podemos desenvolver algo superior como o Bem, o Belo, o Verdadeiro. E construir o Amor como superação do egoísmo.

 

Resumo da palestra proferida pelo Sacerdote João Torunsky

Sociedade Antroposófica no Brasil – 16/11/2016